O filme do estreante em direção Marcos Jorge nasceu da idéia de um conto de Lusa Silvestre "Presos pelo Estômago", do livro "Pólvora, Gorgonzola e Alecrim". Nasce daí o primeiro encontro entre artes: literatura e cinema, que irá gerar outro: cinema e comida. A história tem início com a chegada de Raimundo Nonato (João Miguel) na cidade grande na esperança de conquistar uma vida melhor.
O personagem revela, já no início do filme, seu talento para a cozinha. Contratado por um dono de botequim transforma suas coxinhas e pastéis em chamariz para os clientes. O bar torna-se um sucesso. Por lá personagens importantes da história terão seu primeiro contato com Raimundo: a prostituta Íria (Fabiula Nascimento), e também Giovanni (Carlo Briani), que experimentando sua saborosa comida o contrata como assistente de cozinheiro de um restaurante italiano. A primeira lição foi dada ali, sua habilidade e capacidade para misturar os ingrediente e o sabor de sua comida revelam o caminho a seguir.
Conseguir status, reconhecimento e poder, por meio da cozinha, é o que o ensina o novo patrão. Desde o ponto de cozimento do macarrão, e o momento exato de fritar o alho, a reconhecer as partes mais saborosas (e caras) da carne de vaca, a aprender o que é o queijo gorgonzola, e como transformar, o famoso Romeu e Julieta, em um prato sofisticado, utilizando-o em substituição ao queijo minas; a reconhecer, no mercado, as melhores frutas e verduras e também os melhores vendedores e suas famílias.
Tudo isso faz parte do ritual de aprendizado que Nonato irá utilizar em outro momento do filme, que entrecruza os momentos acima descritos com a entrada de Raimundo Nonato na prisão. Em situações simultâneas vamos acompanhando o poder que aquele que agora se denomina “Nonato Canivete”, conquista no xadrez ao tornar-se cozinheiro do grupo. O líder da cela consegue todos os ingredientes para que o “Parmalat” ou “Alecrim”, como o chamam, possa transformar a horrível comida do presídio.
Num banquete inusitado, na cozinha da prisão, Nonato deixa a todos enfastiados pela boa comida e, a partir dali, com a morte do líder assume o beliche de cima, sonhando em ter uma cela só para ele. Os exercícios de saber e poder ali se evidenciam. Na aprendizagem da culinária com “Seu Giovani”, Nonato descobriu também que boa comida, sexo e poder se equivalem, conforme as metáforas do dono do restaurante e também amante de Íria, a quem Nonato propôs casamento.
Da simplicidade e ingenuidade de um imigrante surge um homem tomado por um sentimento de vingança. O desfecho do filme nada fica a dever a Peter Greenway que fez o brilhante “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”, que traz também outras metáforas sobre os prazeres, e, também, porque não dizer, desprazeres à mesa.
Se a culinária é uma arte, é no estômago que ela encontra seu espaço de devoração e transformação. Ali também ruminamos sobre todos os dissabores da vida. É a partir dali que a vida se mantém. Opostos interessantes como aqueles que o filme aborda.
A antropofagia tem aqui sua outra face. Nonato devorou, não apenas o saber do seu patrão, mas também as metáforas, como verdades, realizando interpretações próprias sobre a arte que aprendeu. A partir daí seus usos e práticas serão os mais variados possíveis.
Não por acaso o filme recebeu, somente no exterior, quatorze premiações. Assisti-lo é um prazer, pois a soma dos ingredientes produziu um “prato” requintado e simples. Excelente roteiro, boa direção, atores magistrais fazem parte dessa receita. Portanto, saboreiem essa obra de arte, que é o cinema.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Assinar:
Comentários (Atom)
