terça-feira, 16 de setembro de 2008

Memória e cultura local: algumas reflexões sobre os cacos da história

Prof.ª Dra. Regma Maria dos Santos

(Prof. de História da UFG-CAC, Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP)


"O que sucede é que tua maldita memória lembra as palavras e esquece o que está por detrás delas.” ((Eu, o Supremo, Augusto Roa Bastos, 1977, p.76)

Assisti, no final dos de 1980, num simpósio de História realizado em Brasília uma mesa-redonda cujo tema era: ‘Memória, História e Patrimônio Cultural”. Depois de passado tanto tempo é incrível como as questões ali colocadas ainda são atuais. Um dos temas abordados referiu-se à postura do historiador diante do patrimônio cultural, ou seja, qual a relação entre memória – como componente do patrimônio cultural; e história - enquanto discurso científico elaborado sobre esta.
O Prof. Afonso Carlos Marques dos Santos, citava, naquele momento a ausência de historiadores nos órgãos de preservação, o que ainda prevalece. Sem contar as cidades que sequer têm seus órgãos de Preservação ativos, ou em precário funcionamento. O que hoje preocupa, além da ausência de historiadores nos órgãos de preservação, é justamente a não reflexão sobre o que é memória, o que tem gerado constantes problemáticas e gostaria aqui de enumerar algumas:
1 – A compreensão de memória como algo cristalizado; remetendo a uma atuação de apenas conservar a documentação já presente nesses lugares, sem que seja dado devido tratamento à mesma e a coloque para ser estudada e avaliada pelos pesquisadores;
2 – A elaboração de dispositivos legais ou jurídicos cuja rigidez impede uma atuação mais flexível dos órgãos de pesquisa, seja na aquisição documental, através de doações de particulares, seja na avaliação dessa documentação (como atribuir a um documento se realmente ele possui valor histórico, ou não, seja ainda na maneira como essa documentação é colocada para o pesquisador).
3 – Uma terceira questão, que talvez na realidade pudesse ser a primeira delas refere-se à criação e manutenção, pelos poderes públicos, desses lugares de memória, diante de tantas outras necessidades administrativas.
Para Yuri Lotman e Uspenskij[1] a cultura dirige-se contra o esquecimento, objetivando transformá-lo em um dos mecanismos da memória. Esses autores consideram ainda que uma das formas mais agudas da luta social se dá no âmbito da cultura através do esquecimento obrigatório a certas experiências históricas.
Mas, em períodos ascendentes da história, ou seja, momentos democráticos, criam-se modelos flexíveis e dinâmicos que ampliam as possibilidades da memória coletiva. Já em momentos de decadência social, acompanha-se uma ossificação da memória coletiva, reduzindo seu volume. Pode-se observar esse exemplo no livro de George Orwell “1984” no qual a memória deve ser apagada e o presente vivido como eterno iniciar. É claro que esse livro é uma crítica à sociedade totalitária.
Paul Zumthor, outro autor que também aborda essa questão, afirma que memória e esquecimento são instrumentos conjuntos e indissociáveis, em suas palavras: “Nossas culturas não se lembram senão esquecendo, não se mantêm se não rejeitando uma parte disto que elas têm, no dia a dia, acumulado de experiência.”[2] Podemos depreender destas referências que não é possível lembrar senão esquecendo. Uma das formas de cristalizar a memória e negar o seu caráter de esquecimento.
Walter Benjamin já nos alertava que, num momento de lampejo, o perigo nos faça lançar nossos olhos para trás. Esse perigo da destruição está sempre em iminência. O historiador em geral, está sempre atrasado. Quando encontra uma documentação parte já foi destruída por intempéries ou por algum interesse espúrio.
Outra forma de cristalizar a memória é também atribuir apenas aos órgãos de preservação, a função de guardar e zelar pelos documentos que o homem produz. Mas, uma das formas mais preocupantes de cristalizar a memória é a prepotência dos órgãos que preservam em “preservar demais”, ou seja, não permitir que uma documentação seja consultada.
A prática da preservação requer o manuseio das fontes, mesmo que seja através de cópias, microfilmes, etc.; mas quando isso não é possível, deve-se permitir ao pesquisador o contato com o documento original, observando as devidas normas técnicas de preservação. Podemos considerar essa prática como “museificação” do documento, no sentido pejorativo do que é um museu.
A partir dessa questão entramos em outro aspecto que é a legislação. Legislar sobre o bem público ou privado é bastante complexo. Porque não basta apenas elaborar as leis, é preciso cumprí-las, mas antes de tudo é preciso interpretá-las. Para que sejam bem interpretadas essas leis têm que contemplar as especificidades a que se refere, porque se consideramos a memória como algo dinâmico e não cristalizado, este dado tem de ser contemplado.
Definir a priori que será preservado e como será feito, sem deixar margens para a especificidade de cada documento, pode resultar em posturas e práticas equivocadas.
Algumas práticas recentes podem ser observadas nesse sentido. A preservação de fachadas é uma delas. Os prédios privados conseguem manter as mesmas características em seu exterior, mas são atribuídos usos sociais diferenciados ao seu interior. Casas se transformam em bancos, em lojas, em bares, resultando em uma reutilização daquele espaço, que conta a história de uma época.
Mas, finalmente onde entra o historiador? Acredito que seu papel seja o de sensibilizar a sociedade e a comunidade para a importância da memória, do documento, dos lugares de memória, e permitir uma maior flexibilidade na elaboração de leis e dispositivos jurídicos de preservação.
O fenômeno recente que ocorre em Catalão de destruição constante e arbitrária do seu patrimônio material, casas de particulares, lojas, órgãos públicos é bastante expressiva em relação às questões acima levantadas. O fenômeno da urbanização, do progresso, tem derrubado o patrimônio arquitetônico em nome do crescimento da cidade, do emprego e da “modernização”.
No Campus de Catalão acompanhamos também esse fenômeno. Prédios são construídos, reformas são feitas e sequer a preservação de fachada foi pensada para preservar a história dos antigos prédios que antes serviam como sala de aula e gabinete de professores. Mais uma vez os historiadores assistiram passivos às mudanças sem chamar atenção para a importância de preservar, até que o painel de artistas catalanos pintado nos anos de 1990 sobre “lugares de memória” da cidade começou a ser destruído. Propõem pintar uma réplica no lugar, mas o que adianta, pois essa réplica também sofrerá a ação do tempo. E então, será novamente substituída por outra, já que é caro restaurar.
Compreendemos então que, como dizia Benjamim, o perigo de destruição da memória é sempre iminente, pois se trata não apenas de destruir a memória do lugar, mas também a memória dos artistas que ali viveram e deixaram suas marcas no tempo.
E como lidar com essas marcas e essas ausências. Um exemplo sobre a participação dos historiadores pode ser dado com relação aos trabalhos que têm sido desenvolvidos sobre a história de Catalão pelos alunos do curso de História da UFG. A aluna Ana Inácia desenvolveu uma pesquisa sobre A Igreja do Rosário no imaginário Catalano, apresentando uma concepção dinâmica de memória, observando que a Igreja e o morro onde se localiza têm sentidos e significados que vão além daqueles observados à primeira vista. A pesquisa revela outros aspectos que diferem da concepção idílica e bucólica do morro, como aquela cantada pelos poetas quando expõe o entorno do morro habitado por pessoas que estabelecem relações naquele local, tornando-o assim um lugar dinamizado pelos conflitos e práticas sociais. Por outro lado, a pesquisa revela também as lendas sobre o morro que se fixaram na memória das pessoas comuns, dos cronistas e memorialistas. E ainda, o espaço profano, onde se encontram os namorados, os amantes que escrevem nas janelas e portas, seus nomes, como se quisessem abençoar aquele ato. E, por fim, o espaço que vigia, inibe e intimida por ter ali um posto policial.
Diante desse exemplo, podemos justificar a importância da preservação, da pesquisa histórica e conseqüentemente a existência desses 'lugares de memória', cujo uso social pode ser redefinido e ampliado. Destaco ainda que a pesquisa acima citada usou como documento as representações da Igreja e do Morro de São João pintadas no mural da UFG, em parte hoje destruído.
Se apenas resta ao historiador, impossibilitado de mudar a história, apenas relatá-la, comentando o que as práticas políticas e as visões sobre cultura e memória têm destruído, não vamos nos esquivar desse papel. Mas, ainda acreditando na importância das ruínas, dos cacos, como Benjamin nos ensina defendo a manutenção do painel, pois talvez ali pudéssemos encontrar o imaginário local sobre certos lugares de memória; talvez ali estivessem expostas as concepções de sagrado e profano da cidade, conforme a leitura dos artistas; talvez ali esteja uma cidade que deva ser destruída para se construir outra em seu lugar (então a sua destruição é também simbólica); talvez esteja ali expresso a necessidade de salvar do esquecimento lugares como a gruta da santa; o morro e a igreja de São João (destaque-se aqui as práticas religiosas ali presentes); a barriguda(que já se foi e plantaram outra no lugar); a praça do relógio; dentre outros. Esses componentes atravessam o estético e se impõe para além dele. O histórico, o imaginário, as representações sociais, as relações de conflitos e lutas e representações são hoje, sim, definidoras do que preservar e respondem a pergunta de porquê preservar.

[1] Y.Lotman y B. Uspenskij. Sobre el mecanismo semiotico de la cultura. In: Semiotica de la cultura. Madrid: Ediciones Catedra, 1979.
[2] Paul Zumthor. Políticas de Esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Sueli Fenerich, mimeo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

ARTIGOS

Alicia en el pueblo de Maravillas – Cinema e Censura em Cuba
Regma Maria dos Santos

“Para viver nesse povoado você tem que conquistá-lo”
(Frase encontrada por Alicia ao chegar em Maravillas)

O filme Alicia en el pueblo de Maravillas é, sem dúvida, polissêmico. Podemos analisá-lo a partir de diferentes perspectivas: desde a construção coletiva do roteiro, passando pelas escolhas técnicas, estéticas e formais do diretor Daniel Dias Torres até a sua narrativa circular.
No entanto, diante de tantas possibilidades delimitamos uma abordagem que relaciona sua elaboração e as implicações externas de sua feitura à sua recepção em Cuba e nos demais países onde foi exibido, tomando a censura ao filme, como tema chave dessa leitura.
Costumamos a entender a censura como um mecanismo regulador oficial que revela a não aceitação do pensamento do outro e sua conseqüente manifestação. Mas é preciso entender também que a censura tem uma raiz fincada nas nossas relações cotidianas. Nós mesmos temos dificuldades de ouvir e aceitar o que os outros, que pensam de forma diferente da nossa, têm a nos dizer. Obviamente isso significa que a censura não está apenas nos lugares instituídos (igreja, escola, estado, meios de comunicação, etc) mas está na própria vivência cotidiana.
No entanto, não podemos deixar de citar que os grandes exemplos da censura na história da humanidade são um reflexo das possibilidades que o homem tem de tratar seus semelhantes, queimando livros ou judeus, torturando inimigos do regime político, impondo silêncio absoluto, impedindo a divulgação e a circulação de bens culturais, como filmes.
A inquisição é talvez uma das mais cruéis formas de censura que a humanidade já assistiu, que veio posteriormente em nosso século a se manifestar nas práticas nazi-fascistas.
Mas a experiência mais próxima que temos de censura no Brasil está ligada diretamente ao governo militar na recente história brasileira, que através do AI-5 (Ato Institucional), instituiu oficialmente a censura no país e determinou a subordinação do Legislativo e do Judiciário ao poder Executivo ligado às forças armadas.
Qualquer atitude de questionamento ao Estado era severamente reprimida e contestada. Mas o que é interessante é que apesar da censura, sempre se buscaram formas de burlar e driblar o poder de veto dos censores. E aí a utilização sutil de certos signos que suscitavam questões como: Por quê algumas páginas de jornal eram deixadas em branco? Por quê certas canções de amor, são na realidade metáforas sobre a repressão no país? Chico Buarque, como um dos nossos melhores poetas, conseguiu fazer isso com maestria, usando inclusive um pseudônimo para ter suas canções liberadas pela censura. “Julinho da Adelaide” essa personagem incorporada por Chico Buarque chegou a dar uma longa entrevista no jornal Última Hora, onde contava passagens de sua “vida” como filho de uma favelada.
Nesse sentido, podemos acreditar que são essas mínimas atitudes diante da censura que vão minando sua existência e possibilitando estabelecer os períodos democráticos da história.
O filme cubano Alicia en el pueblo de Maravillas que estreou em Cuba em 1991 e foi apresentado durante apenas quatro dias e, posteriormente censurado, permite-nos questionar e analisar o tema da censura naquele país e as implicações de sua abordagem.
Alicia... se tornou a obra mais censurada na história de Cuba castrista. Alicia ( Thais Valdés ) é uma estudante recém-graduada de teatro que vai a Maravillas para trabalhar como diretora. Esta cidade é convertida a uma caricatura de Cuba com todos os seus problemas cotidianos. Soluções surreais são tomadas para driblar o cotidiano daqueles que para lá foram enviados. Maravillas é considerado um “purgatório” onde não há santos, nem santas. Nem as crianças escapam à constante exposição de seus defeitos e por isso têm consciência dos castigos que sofrem por questionar as atitudes contrárias ao poder instituído.
Maravillas uniformiza, padroniza, defende o que é público, mesmo que impeça sua utilização. Numa das cenas o casal senta-se em um restaurante e é obrigado a comer com a faca e a colher presos à mesa, os móveis são pregados ao chão, o sabão é preso à pia e todos os objetos são numerados. Destaca-se no filme a padronização das roupas cuja estampa são vários ovos fritos, o que beira ao kitsch. O desenho de um olho persegue os personagens do filme, assim como vários alto-falantes. A escada do hotel é preenchida por tijolos, o que sinaliza a impossibilidade de avançar para o alto.
Em sua exibição no Festival de Berlim, no qual foi premiado, o púbico europeu se surpreendeu de que em Cuba era possível fazer um filme assim. Mas em Cuba o filme foi considerado subversivo, irreverente e contrarevolucionário. Conforme Eduardo de Llano Rodrigues, pertencente ao grupo Nos-y-otros responsável pela elaboração coletiva do roteiro e do filme, a recepção do filme foi condicionada aos comentários da imprensa, bastante severa em suas análises. Alicia... estreou em clima de tensão e tumulto. Depois de quatro dias, o filme saiu de cartaz e em seu lugar estreou Alien II.
Alguns críticos defenderam o direito de existir do filme, mesmo discordando de sua abordagem. Para outros críticos o filme examina os efeitos psicológicos da revolução nas pessoas comuns, expondo seus medos, mas também sua força, já que o riso e o tom burlesco do filme incitam a questionar o poder instituído. Em contraposição ao olho que aparece em várias cenas sugerindo o poder controlador que tudo observa, aparece ao fim do filme o desenho de uma boca sorrindo.
Depois de muitos anos Alicia segue sendo um filme maldito, segundo Rodrigues o filme não foi exibido na televisão, e quase não se consegue em lojas de vídeo. É como se não existisse. Mas, para além da fala de Rodrigues, observamos que nas lojas virtuais de venda de filmes cubanos, ele ocupa o primeiro ou o segundo em lugar entre os mais vendidos.
Quando passados dez anos de seu lançamento, Rodrigues deu depoimento dizendo gostar mais dele agora, do que quando escreveu. Ele sabe não se tratar de uma obra perfeita, tem momentos pueris, coisas que não saíram tão bem, mas mantém o encanto de uma fábula, porque é uma fábula e não um documentário sobre o socialismo em Cuba.
Existem pessoas que adoram, outras que detestam o filme, por sua qualidade artística. Alguns questionam “por isso armaram tanto barulho?”
Alicia faz uso da alegoria e da sátira a partir da obra de Lewis Caroll. Aventuras irracionais, sem sentido aparente, permitem examinar olhar a realidade cubana. Os problemas que nunca se resolvem, justificam a escolha de uma narrativa circular por seu diretor Daniel Dias Torres.
Conforme Laura Raduello em estudo sobre o filme a análise da obra levou os intelectuais cubanos a perguntar se a arte que se põe a serviço da revolução deve expor suas contradições. A polêmica gerada pelo filme trata da interferência e do direito do intelectual de opinar e intervir nos destinos do país.
O filme é uma sátira, que através do humor, da deformação e do exagero critica a propaganda retórica, repetitiva e a censura aos trabalhadores e ao povo cubano. Essa caricatura de Cuba gerou uma das maiores crises entre os ideólogos do partido e o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica) que realizou o filme. O ICAIC foi condenado a formar uma nova associação com organizações audiovisuais de menor relevo. No entanto, posteriormente, conseguiu manter sua independência frente a outras instituições e mais tarde estreou novos filmes tão críticos e complexos como Morango e chocolate(1993), Guantanamera(1995) de Tomáz Gutierrez Alea e Madagascar (1994). Alicia... abriu novos caminhos para o cinema cubano, e porque não dizer para uma nova leitura sobre aquele país e seus intelectuais.
Nós brasileiros simpáticos à experiência socialista vivenciada naquele país pudemos nos deparar com suas contradições e com o esforço daqueles que percebiam, por dentro, a necessidade de renovação. E podemos dizer que toda renovação, toda transformação começa com a crítica seja ela vinda dos ensaios racionais dos pensadores intelectuais na academia, seja ela vinda dos clamores populares e de suas tentativas de sair do lugar que os oprime, seja ela vinda da arte, da literatura, do cinema.
Apesar da proibição o filme Alicia... circulou pelo mundo em festivais, em mostras do cinema cubano, como essa que aqui se realiza, e, podemos inclusive assistir pelo Youtube pequenos trechos do filme que estimulam o desejo de conhecer a obra, e mostram o quão estreito é hoje o poder da censura.






Referências:

Redruello Campos, Laura. Algunas reflexiones en torno a la película Alicia en el pueblo de Maravillas Cuban Studies - Volume 38, 2007, pp. 82-99
http://books.google.com.br/books?id=HkmAZuych2UC&pg=PA82&lpg=PA82&dq=%22alicia+en+el+pueblo+de+las+maravillas%22&source=web&ots=XkNNMmJIzy&sig=5llpD7obHaLL9Juffd2RcyY_XF4&hl=pt-BR&sa=X&oi=book_result&resnum=8&ct=result#PPA95,M1
http://www.chez.com/jpquin/alicia.html

http://www.cinematecacubana.com/scripts/prodView.asp?idProduct=101

http://laventana.casa.cult.cu/modules.php?name=News&file=article&sid=375