Prof.ª Dra. Regma Maria dos Santos
(Prof. de História da UFG-CAC, Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP)
"O que sucede é que tua maldita memória lembra as palavras e esquece o que está por detrás delas.” ((Eu, o Supremo, Augusto Roa Bastos, 1977, p.76)
Assisti, no final dos de 1980, num simpósio de História realizado em Brasília uma mesa-redonda cujo tema era: ‘Memória, História e Patrimônio Cultural”. Depois de passado tanto tempo é incrível como as questões ali colocadas ainda são atuais. Um dos temas abordados referiu-se à postura do historiador diante do patrimônio cultural, ou seja, qual a relação entre memória – como componente do patrimônio cultural; e história - enquanto discurso científico elaborado sobre esta.
O Prof. Afonso Carlos Marques dos Santos, citava, naquele momento a ausência de historiadores nos órgãos de preservação, o que ainda prevalece. Sem contar as cidades que sequer têm seus órgãos de Preservação ativos, ou em precário funcionamento. O que hoje preocupa, além da ausência de historiadores nos órgãos de preservação, é justamente a não reflexão sobre o que é memória, o que tem gerado constantes problemáticas e gostaria aqui de enumerar algumas:
1 – A compreensão de memória como algo cristalizado; remetendo a uma atuação de apenas conservar a documentação já presente nesses lugares, sem que seja dado devido tratamento à mesma e a coloque para ser estudada e avaliada pelos pesquisadores;
2 – A elaboração de dispositivos legais ou jurídicos cuja rigidez impede uma atuação mais flexível dos órgãos de pesquisa, seja na aquisição documental, através de doações de particulares, seja na avaliação dessa documentação (como atribuir a um documento se realmente ele possui valor histórico, ou não, seja ainda na maneira como essa documentação é colocada para o pesquisador).
3 – Uma terceira questão, que talvez na realidade pudesse ser a primeira delas refere-se à criação e manutenção, pelos poderes públicos, desses lugares de memória, diante de tantas outras necessidades administrativas.
Para Yuri Lotman e Uspenskij[1] a cultura dirige-se contra o esquecimento, objetivando transformá-lo em um dos mecanismos da memória. Esses autores consideram ainda que uma das formas mais agudas da luta social se dá no âmbito da cultura através do esquecimento obrigatório a certas experiências históricas.
Mas, em períodos ascendentes da história, ou seja, momentos democráticos, criam-se modelos flexíveis e dinâmicos que ampliam as possibilidades da memória coletiva. Já em momentos de decadência social, acompanha-se uma ossificação da memória coletiva, reduzindo seu volume. Pode-se observar esse exemplo no livro de George Orwell “1984” no qual a memória deve ser apagada e o presente vivido como eterno iniciar. É claro que esse livro é uma crítica à sociedade totalitária.
Paul Zumthor, outro autor que também aborda essa questão, afirma que memória e esquecimento são instrumentos conjuntos e indissociáveis, em suas palavras: “Nossas culturas não se lembram senão esquecendo, não se mantêm se não rejeitando uma parte disto que elas têm, no dia a dia, acumulado de experiência.”[2] Podemos depreender destas referências que não é possível lembrar senão esquecendo. Uma das formas de cristalizar a memória e negar o seu caráter de esquecimento.
Walter Benjamin já nos alertava que, num momento de lampejo, o perigo nos faça lançar nossos olhos para trás. Esse perigo da destruição está sempre em iminência. O historiador em geral, está sempre atrasado. Quando encontra uma documentação parte já foi destruída por intempéries ou por algum interesse espúrio.
Outra forma de cristalizar a memória é também atribuir apenas aos órgãos de preservação, a função de guardar e zelar pelos documentos que o homem produz. Mas, uma das formas mais preocupantes de cristalizar a memória é a prepotência dos órgãos que preservam em “preservar demais”, ou seja, não permitir que uma documentação seja consultada.
A prática da preservação requer o manuseio das fontes, mesmo que seja através de cópias, microfilmes, etc.; mas quando isso não é possível, deve-se permitir ao pesquisador o contato com o documento original, observando as devidas normas técnicas de preservação. Podemos considerar essa prática como “museificação” do documento, no sentido pejorativo do que é um museu.
A partir dessa questão entramos em outro aspecto que é a legislação. Legislar sobre o bem público ou privado é bastante complexo. Porque não basta apenas elaborar as leis, é preciso cumprí-las, mas antes de tudo é preciso interpretá-las. Para que sejam bem interpretadas essas leis têm que contemplar as especificidades a que se refere, porque se consideramos a memória como algo dinâmico e não cristalizado, este dado tem de ser contemplado.
Definir a priori que será preservado e como será feito, sem deixar margens para a especificidade de cada documento, pode resultar em posturas e práticas equivocadas.
Algumas práticas recentes podem ser observadas nesse sentido. A preservação de fachadas é uma delas. Os prédios privados conseguem manter as mesmas características em seu exterior, mas são atribuídos usos sociais diferenciados ao seu interior. Casas se transformam em bancos, em lojas, em bares, resultando em uma reutilização daquele espaço, que conta a história de uma época.
Mas, finalmente onde entra o historiador? Acredito que seu papel seja o de sensibilizar a sociedade e a comunidade para a importância da memória, do documento, dos lugares de memória, e permitir uma maior flexibilidade na elaboração de leis e dispositivos jurídicos de preservação.
O fenômeno recente que ocorre em Catalão de destruição constante e arbitrária do seu patrimônio material, casas de particulares, lojas, órgãos públicos é bastante expressiva em relação às questões acima levantadas. O fenômeno da urbanização, do progresso, tem derrubado o patrimônio arquitetônico em nome do crescimento da cidade, do emprego e da “modernização”.
No Campus de Catalão acompanhamos também esse fenômeno. Prédios são construídos, reformas são feitas e sequer a preservação de fachada foi pensada para preservar a história dos antigos prédios que antes serviam como sala de aula e gabinete de professores. Mais uma vez os historiadores assistiram passivos às mudanças sem chamar atenção para a importância de preservar, até que o painel de artistas catalanos pintado nos anos de 1990 sobre “lugares de memória” da cidade começou a ser destruído. Propõem pintar uma réplica no lugar, mas o que adianta, pois essa réplica também sofrerá a ação do tempo. E então, será novamente substituída por outra, já que é caro restaurar.
Compreendemos então que, como dizia Benjamim, o perigo de destruição da memória é sempre iminente, pois se trata não apenas de destruir a memória do lugar, mas também a memória dos artistas que ali viveram e deixaram suas marcas no tempo.
E como lidar com essas marcas e essas ausências. Um exemplo sobre a participação dos historiadores pode ser dado com relação aos trabalhos que têm sido desenvolvidos sobre a história de Catalão pelos alunos do curso de História da UFG. A aluna Ana Inácia desenvolveu uma pesquisa sobre A Igreja do Rosário no imaginário Catalano, apresentando uma concepção dinâmica de memória, observando que a Igreja e o morro onde se localiza têm sentidos e significados que vão além daqueles observados à primeira vista. A pesquisa revela outros aspectos que diferem da concepção idílica e bucólica do morro, como aquela cantada pelos poetas quando expõe o entorno do morro habitado por pessoas que estabelecem relações naquele local, tornando-o assim um lugar dinamizado pelos conflitos e práticas sociais. Por outro lado, a pesquisa revela também as lendas sobre o morro que se fixaram na memória das pessoas comuns, dos cronistas e memorialistas. E ainda, o espaço profano, onde se encontram os namorados, os amantes que escrevem nas janelas e portas, seus nomes, como se quisessem abençoar aquele ato. E, por fim, o espaço que vigia, inibe e intimida por ter ali um posto policial.
Diante desse exemplo, podemos justificar a importância da preservação, da pesquisa histórica e conseqüentemente a existência desses 'lugares de memória', cujo uso social pode ser redefinido e ampliado. Destaco ainda que a pesquisa acima citada usou como documento as representações da Igreja e do Morro de São João pintadas no mural da UFG, em parte hoje destruído.
Se apenas resta ao historiador, impossibilitado de mudar a história, apenas relatá-la, comentando o que as práticas políticas e as visões sobre cultura e memória têm destruído, não vamos nos esquivar desse papel. Mas, ainda acreditando na importância das ruínas, dos cacos, como Benjamin nos ensina defendo a manutenção do painel, pois talvez ali pudéssemos encontrar o imaginário local sobre certos lugares de memória; talvez ali estivessem expostas as concepções de sagrado e profano da cidade, conforme a leitura dos artistas; talvez ali esteja uma cidade que deva ser destruída para se construir outra em seu lugar (então a sua destruição é também simbólica); talvez esteja ali expresso a necessidade de salvar do esquecimento lugares como a gruta da santa; o morro e a igreja de São João (destaque-se aqui as práticas religiosas ali presentes); a barriguda(que já se foi e plantaram outra no lugar); a praça do relógio; dentre outros. Esses componentes atravessam o estético e se impõe para além dele. O histórico, o imaginário, as representações sociais, as relações de conflitos e lutas e representações são hoje, sim, definidoras do que preservar e respondem a pergunta de porquê preservar.
[1] Y.Lotman y B. Uspenskij. Sobre el mecanismo semiotico de la cultura. In: Semiotica de la cultura. Madrid: Ediciones Catedra, 1979.
[2] Paul Zumthor. Políticas de Esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Sueli Fenerich, mimeo.
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