quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dogville

Comentários sobre o filme do diretor Lars Von Trier, Dogville, de 2003.

Bruno Pereira de Oliveira – Ciências Sociais – UFG/CAC

Impacto. Choque. São dois possíveis adjetivos que caracterizam as primeiras cenas de Dogville, e por que não todo o filme. O cenário é inovador – na verdade o cenário é ausente... Onde estão as paredes, objetos, onde está tudo? – Até mesmo o cachorro não passa de um desenho no chão...
Creio ser proposital a ausência de construções concretas, pois parece representar que os habitantes de Dogville, mesmo não vendo o que acontece uns com os outros, podem deduzi-lo. Além disso, este artifício centra a total atenção nos personagens, o que faz até mesmo com que nos percamos um pouco da atenção, curiosos em relação ao que os outros personagens estão fazendo enquanto o foco centra-se em determinado ponto.
O cachorro é talvez o personagem mais importante. Ele não se comporta como cachorro, não se manifesta muito. Em contrapartida, as pessoas fazem o papel de cães. As necessidades mais animalescas das pessoas se sobressaem. O sexo, caracterizado pelo estupro, ganha um foco considerável.
A teoria rousseauniana do Bom Selvagem é arrasada. As pessoas são más por natureza. Quem não espera por uma reviravolta durante o filme e/ou não exulta com a vingança de Grace?
As duas cenas que, em meu ponto de vista, mais marcam e representam a essência do filme de Von Trier são, em primeiro lugar, quando Vera quebra dois dos bonecos de Grace e diz que se ela contiver suas lágrimas os outros serão poupados. E, no final, Grace vinga-se magistralmente ordenando que somente poupem os filhos de Vera se ela contiver suas lágrimas ao começarem a matá-los.
Quanto a Nicole Kidman. Simplesmente excepcional.
No início o filme parece ser cansativo, fato acentuado pela ausência de cenário e trilha sonora marcante, e, talvez atenuado pelas mudanças de luz que marcam as principais cenas. Porém as cenas são marcantes. Desnuda-se a essência das pessoas, seu individualismo, seus interesses, um fantástico jogo de metáforas, e, nesse processo, percebe-se o bom emprego que as quase três horas de filme representaram.
Dogville e seus habitantes transcendem o tempo e o espaço. Podem ser colocados em qualquer lugar e em qualquer tempo.
A grande crítica do filme é de caráter social... Em grande estilo nos é perguntado o que realmente somos.

Resenha: Nenhum a Menos: uma leitura das contradições da China moderna

Selecionei 2 resenhas de filmes da disciplina História e Cinema para publicar no blog. Segue abaixo a resenha do filme Nenhum a menos.


Cássia Pereira da Silva

O filme Nenhum a Menos, de Zhang Yimou, retrata de forma quase documental um aspecto pouco conhecido da nação chinesa - a evasão escolar justificada pela pobreza, especialmente na área rural no interior do país asiático. Além de demonstrar a perseverança e tenacidade do povo chinês.
Apesar do gradual desenvolvimento econômico evidenciado a partir da década de 90, a China ainda apresenta relevantes problemas sociais, como por exemplo, o sistema educacional no interior chinês. Percebe-se claramente que o progresso ainda não alcançou boa parte da população chinesa.
O filme aborda os problemas população rural ao contar a história de uma jovem (Wei Minzhi) de apenas 13 anos, que é contratada como professora substituta de uma pequena aldeia, tendo a missão de garantir que nenhum dos alunos e alunas abandone a escola. Quando um dos alunos (Zhang Huike) vai trabalhar na cidade grande, a professora sai numa obstinada missão à sua procura, a fim de convencê-lo a retornar. Percebe-se que a jovem professora é uma menina tímida, inexperiente e sem credibilidade diante das crianças acabando por ficar perdida em meio à turma. Wei faz a chamada a cada novo dia e depois passa para os alunos os deveres de cópias das lições escritas no quadro negro, mas não se preocupa muito se eles estão aprendendo realmente, ela só quer que eles não abandonem a escola.
Um fator interessante do filme é o cenário, a vila de Shuiquan, é árida e extremamente pobre. A escola é simples e extremamente carente de recursos educacionais. Wei dispõe de apenas um giz para cada dia de aula, economizando-os o máximo possível. Ninguém possui livros, a mesa do professor está quebrada, e os alunos e alunas sentam-se em bancos de madeira desconfortáveis. Wei e alguns alunos dormem na própria escola, sendo que, as camas dos alunos são improvisadas com as carteiras da classe. Esta realidade evidenciada no filme é comparável ao que ocorre em pequenas cidades e zona rural do nordeste brasileiro, uma vez que ali a terra é árida, as estradas não são conservadas, as escolas estão caindo aos pedaços, há fome e analfabetismo em larga escala. Há uma alta evasão escolar nesses lugares, pois para ajudar no sustento da família as crianças largam a escola muito cedo, antes dos 14 anos, para ir até a cidade grande mais próxima e arranjar subempregos, ou mesmo mendigar. Ou seja, uma extrema pobreza também assola uma grande parte da população brasileira assim como na China moderna.
Como mostrado no filme a pobreza fez com que o aluno Zhang Huike fosse para a cidade grande em busca de trabalho. Diante dessa situação Wei decide ir em busca de Zhang Huike e para isso todos os alunos assumiram a responsabilidade no resgate do colega colaborando na arrecadação de fundos, mesmo que para isso tivessem que submeter ao trabalho braçal numa olaria. É interessante observar, tanto no começo até o fim dessa trajetória, a recusa da personagem em desistir antes da realização do seu objetivo, o que demonstra a tamanha obstinação e determinação do povo chinês.
Outro fator observado no filme são as discrepâncias da modernidade existentes nas cidades grandes e industrializadas, onde prosperidade e extrema carência “andam de mãos dadas”. Apesar do crescimento econômico, apenas uma pequena parcela da população usufrui dos benefícios desse crescimento, enquanto a maior parte da população ainda permanece na miséria. O realismo social de Nenhum a Menos também é obtido pela quase ausência de música. Os sons presentes no filme são em sua maioria referentes a passos, diálogos, sobre um fundo de ruídos do campo ou o barulho do trânsito e do “corre-corre” da cidade grande, na segunda parte do filme. E isto traz ao filme grande realidade.
Desta forma, Nenhum a Menos, realiza uma crítica social contundente demonstrando claras preocupações sociais, relativas às condições da interioridade na China moderna, além de remeter o espectador às realidades vividas em seu próprio país.