Não tem importância, então, se as respostas que demos às nossas perguntas forem logo corrigidas pelo tempo; o adolescente também ignora as futuras transformações desse rosto que vê na água: indecifrável à primeira vista, como uma pedra sagrada coberta de talhos e signos, a máscara do velho é a história de algumas feições amorfas que um dia emergiram confusas, vagamente captadas por um olhar absorto. Em virtude deste olhar as feições se fizeram rosto e, mais tarde, máscara, significação, história.” (Octávio Paz)
O que podemos dizer sobre a história e o ofício do historiador, nesse momento, de “formatura”? Inicio minhas reflexões a partir dessa pergunta remetendo-me a um artigo que li semanas atrás sobre a necessidade das ciências humanas, e ai incluímos a história, de libertar-se do “jaleco do cientista” e da “retórica conceitual”, aproximando-se e, levando em conta, o senso comum e possibilidade da valorização de textos menos amarrados a jargões conceituais e mais próximos ao ensaio.
Faço essas considerações iniciais com o objetivo de dizer aqui que o conhecimento produzido pela história e pelas ciências humanas, em geral, é constantemente renovado, como também os métodos, as técnicas e as práticas de investigação e escrita. Isso quer dizer que esse é apenas um momento e um ritual de passagem, mas o historiador, seja ele pesquisador e ou professor de história, jamais deve abrir mão de uma formação continuada, de uma visada interdisciplinar de suas práticas e reflexões. Duas coisas fundamentais que tentei tratar com essa turma ao longo do período em que estivemos juntos.
Se, por um lado, concordo que é necessário abrir mão do “jaleco do cientista” e não amarrar nossas reflexões a jargões conceituais deformando nosso objeto para caber em sínteses analíticas estreitas, acredito também em algumas “palavras-conceitos” ainda são e serão fundamentais em nossa prática e é sobre elas, vou falar um pouco.
A primeira delas é a “experiência”, termo tão caro a autores como Benjamin e Thompson, e que nos ajuda compreender outras variáveis, como a idéia de tradição e transmissão cultural e também de identidade. Abrir mão da experiência é aniquilar o passado em nome de uma concepção de “progresso” a qualquer custo. O que é bastante discutido por todos nós. E, nesse sentido, alio ao conceito de experiência outro de fundamental importância para os “tecelões do tempo”, que somos nós, que é o conceito de Memória e seu par o esquecimento.
A memória do que fomos inclui o que queremos ser, ou o que estamos destinados a ser. A idéia do “progresso”, do “novo”, do “moderno” que nega isso é a mesma que possibilitou a ascensão do fascismo. E então acredito firmemente que, quando escolhi ser historiadora, foi por essa causa, lutar contra as práticas fascistas, porque o fascismo não foi apenas um movimento localizado num período específico da história. O fascismo é uma prática de mutilação de um passado, de sua negação absoluta em nome da mais devastadora novidade.
Acredito que como os poetas, os pintores, e todos os demais artistas, nossa função seja uma luta contínua a favor da experiência, da memória, de nossas vidas, do nosso grupo, das instituições e das relações humanas em geral.
Dito isso, tomo de empréstimo a canção de Marisa Monte feita para um profeta carioca chamado Gentileza que teve suas obras de arte pintadas em espaços públicos do Rio de Janeiro, encobertas por cal branca, num claro apagamento da memória de um homem considerado louco por uns e um poeta por outros. Ela diz:
“apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só restou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Precisamos ver as letras e as palavras de Gentileza”
....Espero que meus queridos formandos e formandas tenham aqui, ao menos, aprendido a, sensivelmente, abrir os olhos e ouvidos, nesse mundo moderno e agitado, para as palavras do poeta e os sentidos da memória, e que, assim como os artistas, denunciem ativamente e poeticamente as práticas que tentam encobrir nossa memória. E como nos ensinou Walter Benjamin ler a história à contrapelo, e descobrir por baixo da tinta cinza, dos cacos e dos fragmentos da memória o sentido de nossa vida e de nossa história.