domingo, 11 de dezembro de 2011

Manjar la comida catalã

Conhecer outros países parece ser um desafio, por vezes, saboroso. É claro que em todos os sentidos, dizer que se “conhece” um pais estando tão pouco tempo ali, soa, na verdade, muito pretensioso. Por isso prefiro deixar claro aqui que se trata de experiências muito pessoais com todos os condicionamentos que isso implica.
A sensação que temos quando chegamos aqui é que o espanhol come muito. Os horários são diferentes dos nossos e, por exemplo, quando já vamos almoçar por volta de 11:30 ou 12:00 os espanhóis comem um bocadilho, que pode ser metade de um baguete recheado com “jamon” que é uma espécie de presunto cultuado por eles.
O almoço só começa a ser servido por volta das 13:00 , e tem primeiro, segundo, terceiro prato e para finalizar um café. Respeitando esses horários as lojas dos bairros que só abrem depois das 9:00, fecham-se por volta das !4:00 e só são reabertas por volta das 16:30, funcionando em geral até as 20:00 hs. Para beber sempre uma boa cava, e também vinhos muito bem avaliados. Aqui come-se também muito pão, cujas receitas são variadas e saborosas.


As vitrines das “panaderias” são verdadeiros espetáculos para os olhos e para o paladar. Receitas antiqüíssimas de doces, merengues, quintadas são mantidas principalmente em lojas da cidade velha.
Os peixes também são muito consumidos aqui e a paella de marisco a mim me pareceram as mais saborosas. O bacalhau que provamos num restaurante chama La Taverna, foi especial, pois servido com uma espécie de ratatouille (verduras com molho vermelho). O restaurante também é muito interessante, uma espécie de museu da publicidade. Apresento aqui uma delas, na qual o dragão vencido por São Jorge(padroeiro da cidade), aparece mais uma vez.

 


Creio não ser por acaso que o cozinheiro número 1 do mundo chamando Ferran Adrià vive em Barcelona. Seu restaurante “El Bulli” foi recentemente fechado e a Folha de São Paulo lhe dedicou uma enorme matéria. Para muitos Adrià faz com a comida o que Gaudi fez com a arquitetura, uma revolução em nossos sentidos e percepções. Pena que, com certeza, jamais desfrutarei desse prazer! Pelo menos pude desfrutar um pouco dos temperos, cheiros, sabores, cores da comida da Catalunha.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entre dragões e torres: a arte de educar em Barcelona

É interessante observar aqui em Barcelona a forma como pensam e praticam o que chamamos “educação”. Pensamos que aqui esse termo é como se fosse a alma do povo, e não há como pensá-la sem compreender o mais profundo sentido que esse tema tem para as pessoas comuns.

Posso citar alguns exemplos práticos que vivenciei aqui para justificar minhas considerações acima. Trouxe meu filho de quase 5 anos para cá e nesse curto espaço de tempo tornei-me uma observadora atenta de como as crianças são tratadas aqui. No primeiro dia que saímos pela cidade levamos nosso filho à universidade, ao virar o quarteirão nos deparamos com um verdureiro que brincou com ele e disse: “no anar a l'escola?”

A partir dai começou toda uma série de situações, nas quais os olhares se voltavam para nós, como se estivessemos burlando uma conduta, um código, uma prática social. Voltamos para casa convictos que deveríamos matricular o Heitor em uma escola mesmo que fosse apenas por 2 meses. E por esse fato pude entrar dentro de uma escola catalã e observar suas práticas e métodos.

Devo falar dessa perspectiva institucional em outro momento, porque o interessante de processo de reconhecimento veio aos poucos, por meio de observações cotidianas . Uma das mais interessantes foi ver uma criança entre 2 e 3 anos, vindo da escola com o seu avô. Ela carregava uma mochila nas costas que parecia mais pesada que ela. Então ele caia e rolava no chão como uma bola tentando se levantar com o peso da mochila, e o avô apenas observava. Quando começei a buscar o Heitor na escola, vi esta cena se repetindo várias vezes, como se fosse comum. E eu carregando um menino de quase 5 anos no colo!

Começei a compreender que isso faz parte de um processo de educação para a vida que, para mim, tem haver com a alma anarquista desse povo: educa-se para a autonomia e a responsabilidade. Cada um, desde cedo, carrega a mochila que lhe é destinada e assim para o resto de suas vidas.

Ao visitar a Sagrada Família, tão linda, imponente, majestosa, fruto de uma obsessão, não apenas do Gaudi, mas de uma sociedade, e sobre a qual também formulei algumas hipóteses, o que mais me chamou atenção foi uma pequena construção ao seu lado, que é a escola que Gaudi projetou para ensinar aos filhos dos operários que trabalhavam em sua construção.


Quando vemos as pinturas de Miró também não podemos deixar de pensar no sentido que a infância tem para o povo catalão. João Cabral de Melo Neto o homenageou em um poema, que creio ser uma síntese dessa sociedade, que aprende com os “niños e niñas” as lições sobre como lidar com o inesperado, com o que não é adestrado, com o desconhecido. E, a partir dai, compreendo porque Heitor quis pintar de rosa a Sagrada Família e encontrar dragões pela cidade.



O sim contra o sim

João Cabral de Melo Neto:

Miró sentia a mão direita

demasiado sábia

e que de saber tanto

já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse

o muito que aprendera,

a fim de reencontrar

a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se

a desenhar com esta

até que, se operando,

no braço direito ele a enxerta.

A esquerda (se não se é canhoto)

é mão sem habilidade:

reaprende a cada linha,

cada instante, a recomeçar-se.