É interessante observar aqui em Barcelona a forma como pensam e praticam o que chamamos “educação”. Pensamos que aqui esse termo é como se fosse a alma do povo, e não há como pensá-la sem compreender o mais profundo sentido que esse tema tem para as pessoas comuns.
Posso citar alguns exemplos práticos que vivenciei aqui para justificar minhas considerações acima. Trouxe meu filho de quase 5 anos para cá e nesse curto espaço de tempo tornei-me uma observadora atenta de como as crianças são tratadas aqui. No primeiro dia que saímos pela cidade levamos nosso filho à universidade, ao virar o quarteirão nos deparamos com um verdureiro que brincou com ele e disse: “no anar a l'escola?”
A partir dai começou toda uma série de situações, nas quais os olhares se voltavam para nós, como se estivessemos burlando uma conduta, um código, uma prática social. Voltamos para casa convictos que deveríamos matricular o Heitor em uma escola mesmo que fosse apenas por 2 meses. E por esse fato pude entrar dentro de uma escola catalã e observar suas práticas e métodos.
Devo falar dessa perspectiva institucional em outro momento, porque o interessante de processo de reconhecimento veio aos poucos, por meio de observações cotidianas . Uma das mais interessantes foi ver uma criança entre 2 e 3 anos, vindo da escola com o seu avô. Ela carregava uma mochila nas costas que parecia mais pesada que ela. Então ele caia e rolava no chão como uma bola tentando se levantar com o peso da mochila, e o avô apenas observava. Quando começei a buscar o Heitor na escola, vi esta cena se repetindo várias vezes, como se fosse comum. E eu carregando um menino de quase 5 anos no colo!
Começei a compreender que isso faz parte de um processo de educação para a vida que, para mim, tem haver com a alma anarquista desse povo: educa-se para a autonomia e a responsabilidade. Cada um, desde cedo, carrega a mochila que lhe é destinada e assim para o resto de suas vidas.
Ao visitar a Sagrada Família, tão linda, imponente, majestosa, fruto de uma obsessão, não apenas do Gaudi, mas de uma sociedade, e sobre a qual também formulei algumas hipóteses, o que mais me chamou atenção foi uma pequena construção ao seu lado, que é a escola que Gaudi projetou para ensinar aos filhos dos operários que trabalhavam em sua construção.
Quando vemos as pinturas de Miró também não podemos deixar de pensar no sentido que a infância tem para o povo catalão. João Cabral de Melo Neto o homenageou em um poema, que creio ser uma síntese dessa sociedade, que aprende com os “niños e niñas” as lições sobre como lidar com o inesperado, com o que não é adestrado, com o desconhecido. E, a partir dai, compreendo porque Heitor quis pintar de rosa a Sagrada Família e encontrar dragões pela cidade.
O sim contra o sim
João Cabral de Melo Neto:
Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.
Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.
Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.
A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.
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2 comentários:
instigantes seus relatos de viagem. Barcelona By Regma, me despertou ainda mais curiosidades. saudades
fala mais aí Regma. beijos.
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