Alicia en el pueblo de Maravillas – Cinema e Censura em Cuba
Regma Maria dos Santos
“Para viver nesse povoado você tem que conquistá-lo”
(Frase encontrada por Alicia ao chegar em Maravillas)
O filme Alicia en el pueblo de Maravillas é, sem dúvida, polissêmico. Podemos analisá-lo a partir de diferentes perspectivas: desde a construção coletiva do roteiro, passando pelas escolhas técnicas, estéticas e formais do diretor Daniel Dias Torres até a sua narrativa circular.
No entanto, diante de tantas possibilidades delimitamos uma abordagem que relaciona sua elaboração e as implicações externas de sua feitura à sua recepção em Cuba e nos demais países onde foi exibido, tomando a censura ao filme, como tema chave dessa leitura.
Costumamos a entender a censura como um mecanismo regulador oficial que revela a não aceitação do pensamento do outro e sua conseqüente manifestação. Mas é preciso entender também que a censura tem uma raiz fincada nas nossas relações cotidianas. Nós mesmos temos dificuldades de ouvir e aceitar o que os outros, que pensam de forma diferente da nossa, têm a nos dizer. Obviamente isso significa que a censura não está apenas nos lugares instituídos (igreja, escola, estado, meios de comunicação, etc) mas está na própria vivência cotidiana.
No entanto, não podemos deixar de citar que os grandes exemplos da censura na história da humanidade são um reflexo das possibilidades que o homem tem de tratar seus semelhantes, queimando livros ou judeus, torturando inimigos do regime político, impondo silêncio absoluto, impedindo a divulgação e a circulação de bens culturais, como filmes.
A inquisição é talvez uma das mais cruéis formas de censura que a humanidade já assistiu, que veio posteriormente em nosso século a se manifestar nas práticas nazi-fascistas.
Mas a experiência mais próxima que temos de censura no Brasil está ligada diretamente ao governo militar na recente história brasileira, que através do AI-5 (Ato Institucional), instituiu oficialmente a censura no país e determinou a subordinação do Legislativo e do Judiciário ao poder Executivo ligado às forças armadas.
Qualquer atitude de questionamento ao Estado era severamente reprimida e contestada. Mas o que é interessante é que apesar da censura, sempre se buscaram formas de burlar e driblar o poder de veto dos censores. E aí a utilização sutil de certos signos que suscitavam questões como: Por quê algumas páginas de jornal eram deixadas em branco? Por quê certas canções de amor, são na realidade metáforas sobre a repressão no país? Chico Buarque, como um dos nossos melhores poetas, conseguiu fazer isso com maestria, usando inclusive um pseudônimo para ter suas canções liberadas pela censura. “Julinho da Adelaide” essa personagem incorporada por Chico Buarque chegou a dar uma longa entrevista no jornal Última Hora, onde contava passagens de sua “vida” como filho de uma favelada.
Nesse sentido, podemos acreditar que são essas mínimas atitudes diante da censura que vão minando sua existência e possibilitando estabelecer os períodos democráticos da história.
O filme cubano Alicia en el pueblo de Maravillas que estreou em Cuba em 1991 e foi apresentado durante apenas quatro dias e, posteriormente censurado, permite-nos questionar e analisar o tema da censura naquele país e as implicações de sua abordagem.
Alicia... se tornou a obra mais censurada na história de Cuba castrista. Alicia ( Thais Valdés ) é uma estudante recém-graduada de teatro que vai a Maravillas para trabalhar como diretora. Esta cidade é convertida a uma caricatura de Cuba com todos os seus problemas cotidianos. Soluções surreais são tomadas para driblar o cotidiano daqueles que para lá foram enviados. Maravillas é considerado um “purgatório” onde não há santos, nem santas. Nem as crianças escapam à constante exposição de seus defeitos e por isso têm consciência dos castigos que sofrem por questionar as atitudes contrárias ao poder instituído.
Maravillas uniformiza, padroniza, defende o que é público, mesmo que impeça sua utilização. Numa das cenas o casal senta-se em um restaurante e é obrigado a comer com a faca e a colher presos à mesa, os móveis são pregados ao chão, o sabão é preso à pia e todos os objetos são numerados. Destaca-se no filme a padronização das roupas cuja estampa são vários ovos fritos, o que beira ao kitsch. O desenho de um olho persegue os personagens do filme, assim como vários alto-falantes. A escada do hotel é preenchida por tijolos, o que sinaliza a impossibilidade de avançar para o alto.
Em sua exibição no Festival de Berlim, no qual foi premiado, o púbico europeu se surpreendeu de que em Cuba era possível fazer um filme assim. Mas em Cuba o filme foi considerado subversivo, irreverente e contrarevolucionário. Conforme Eduardo de Llano Rodrigues, pertencente ao grupo Nos-y-otros responsável pela elaboração coletiva do roteiro e do filme, a recepção do filme foi condicionada aos comentários da imprensa, bastante severa em suas análises. Alicia... estreou em clima de tensão e tumulto. Depois de quatro dias, o filme saiu de cartaz e em seu lugar estreou Alien II.
Alguns críticos defenderam o direito de existir do filme, mesmo discordando de sua abordagem. Para outros críticos o filme examina os efeitos psicológicos da revolução nas pessoas comuns, expondo seus medos, mas também sua força, já que o riso e o tom burlesco do filme incitam a questionar o poder instituído. Em contraposição ao olho que aparece em várias cenas sugerindo o poder controlador que tudo observa, aparece ao fim do filme o desenho de uma boca sorrindo.
Depois de muitos anos Alicia segue sendo um filme maldito, segundo Rodrigues o filme não foi exibido na televisão, e quase não se consegue em lojas de vídeo. É como se não existisse. Mas, para além da fala de Rodrigues, observamos que nas lojas virtuais de venda de filmes cubanos, ele ocupa o primeiro ou o segundo em lugar entre os mais vendidos.
Quando passados dez anos de seu lançamento, Rodrigues deu depoimento dizendo gostar mais dele agora, do que quando escreveu. Ele sabe não se tratar de uma obra perfeita, tem momentos pueris, coisas que não saíram tão bem, mas mantém o encanto de uma fábula, porque é uma fábula e não um documentário sobre o socialismo em Cuba.
Existem pessoas que adoram, outras que detestam o filme, por sua qualidade artística. Alguns questionam “por isso armaram tanto barulho?”
Alicia faz uso da alegoria e da sátira a partir da obra de Lewis Caroll. Aventuras irracionais, sem sentido aparente, permitem examinar olhar a realidade cubana. Os problemas que nunca se resolvem, justificam a escolha de uma narrativa circular por seu diretor Daniel Dias Torres.
Conforme Laura Raduello em estudo sobre o filme a análise da obra levou os intelectuais cubanos a perguntar se a arte que se põe a serviço da revolução deve expor suas contradições. A polêmica gerada pelo filme trata da interferência e do direito do intelectual de opinar e intervir nos destinos do país.
O filme é uma sátira, que através do humor, da deformação e do exagero critica a propaganda retórica, repetitiva e a censura aos trabalhadores e ao povo cubano. Essa caricatura de Cuba gerou uma das maiores crises entre os ideólogos do partido e o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica) que realizou o filme. O ICAIC foi condenado a formar uma nova associação com organizações audiovisuais de menor relevo. No entanto, posteriormente, conseguiu manter sua independência frente a outras instituições e mais tarde estreou novos filmes tão críticos e complexos como Morango e chocolate(1993), Guantanamera(1995) de Tomáz Gutierrez Alea e Madagascar (1994). Alicia... abriu novos caminhos para o cinema cubano, e porque não dizer para uma nova leitura sobre aquele país e seus intelectuais.
Nós brasileiros simpáticos à experiência socialista vivenciada naquele país pudemos nos deparar com suas contradições e com o esforço daqueles que percebiam, por dentro, a necessidade de renovação. E podemos dizer que toda renovação, toda transformação começa com a crítica seja ela vinda dos ensaios racionais dos pensadores intelectuais na academia, seja ela vinda dos clamores populares e de suas tentativas de sair do lugar que os oprime, seja ela vinda da arte, da literatura, do cinema.
Apesar da proibição o filme Alicia... circulou pelo mundo em festivais, em mostras do cinema cubano, como essa que aqui se realiza, e, podemos inclusive assistir pelo Youtube pequenos trechos do filme que estimulam o desejo de conhecer a obra, e mostram o quão estreito é hoje o poder da censura.
Referências:
Redruello Campos, Laura. Algunas reflexiones en torno a la película Alicia en el pueblo de Maravillas Cuban Studies - Volume 38, 2007, pp. 82-99
http://books.google.com.br/books?id=HkmAZuych2UC&pg=PA82&lpg=PA82&dq=%22alicia+en+el+pueblo+de+las+maravillas%22&source=web&ots=XkNNMmJIzy&sig=5llpD7obHaLL9Juffd2RcyY_XF4&hl=pt-BR&sa=X&oi=book_result&resnum=8&ct=result#PPA95,M1
http://www.chez.com/jpquin/alicia.html
http://www.cinematecacubana.com/scripts/prodView.asp?idProduct=101
http://laventana.casa.cult.cu/modules.php?name=News&file=article&sid=375
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
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Um comentário:
Fiquei instigada a assistir esse filme!!! Um abraço!!
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