segunda-feira, 2 de maio de 2011

“Sei que nada será como antes, amanhã”

“Sei que nada será como antes, amanhã”[1]


            Regma Maria dos Santos

            No início da década de 1980, aos 17 anos de idade, ingressei na Universidade Federal de Uberlândia para o extinto (graças a Deus e aos homens) curso de Estudos Sociais com licenciatura em História.
            A dimensão de estranhamento acompanhou-me durante um bom tempo, já que vinha de uma escola pública, o Museu, no qual éramos severamente cobrados por disciplina e impedidos de discutir qualquer tema político, mesmo de portas fechadas. Não foi fácil entrar num espaço no qual não havia a disciplina férrea do colégio e onde se podia falar de tudo a todos.
            Não faltavam nas nossas bibliografias as referências ao marxismo, ao próprio Marx e a todos os marxistas. Discutia-se política com fervor. Fazia-se política com fervor. Não por acaso, daquelas turmas do curso de História, saíram políticos de carreira, assessores, líderes sindicais e partidários, presidentes de associações, dentre outros.
            A mobilização do sindicato dos professores era presente nos cursos de licenciatura. Greves pululavam, manifestações nos corredores do curso de História e na Universidade eram comuns. Questionava-se tudo, dizia-se tudo o que se pensava, mesmo a quem não quisesse ouvir. Eu, perplexa e encantada ao mesmo tempo!
            No país, os movimentos pelo fim da ditadura davam o tom político do momento. Havia uma intensa mobilização social para isso. “Para não dizer que não falei das flores” os tempos eram outros, mas nem tanto assim...Vi amigos serem presos por coordenarem atos de protesto em praça pública. A Universidade, de alguma forma, estava lá, nas manifestações dos sindicatos, das associações, e também do movimento das “Diretas Já(z)”. Já havíamos aprendido que “a vida não se resume a festivais”.
            Ali construí minhas amizades mais duradouras e consistentes. Apadrinhei casamentos e filhos. Amizades, rancores, expectativas tiveram ali seu espaço. Tivemos também a visita do cometa Halley que reuniu, numa vigília noturna, centenas de alunos da Universidade para assistir à sua passagem. Esse momento, dentre outros, faz parte das vivências pulsantes de jovens que, na casa de seus vinte e poucos anos, experimentavam e foram fundamentais para o seu “vir-a-ser”.
            Os especiais anos 80 do século XX foram de transição, de passagem (não só do cometa). Nossa percepção também se alterara. Assistimos o proibido “Je vous salue, Marie” no auditório da Biblioteca. Fazíamos sessões de vídeo para conhecer o cinema europeu e até mesmo o cinema brasileiro. Ouvíamos influenciados pela música popular brasileira dos anos 60 e 70, o rock dos Titãs, Paralamas, Legião Urbana..., que embalavam nossas festas e comemorações, especialmente as das sextas-feiras à noite. “Vaca profana” era a música tema de nossas festas na casa da Leninha. Os bares do “Zé Beijinho”, do Kabata e do Tio Afonso e também o DAGEMP, eram nossos pontos de encontro.
            Cantávamos a revolução (ouvindo RPM), mas não apenas aquela que abalaria as estruturas políticas da nação, mas também aquela do cotidiano: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” (Titãs), era um refrão intensamente repetido.
            A memória daquele período ainda é viva, mas também seletiva e, por isso, às vezes cruel. Gostaria de lembrar certos detalhes, mas eles escapam, diluem-se na bruma do tempo. Esse exercício de rememoração permitiu-me reencontrar certos sentidos à muito encobertos: cores, cheiros, texturas, sons e os seus significados. Não conseguiria traduzi-los aqui em palavras, numa única crônica.
            Aqui ficam as impressões e sensações de quem viveu esse período, mas não sozinha, e por isso misturei a primeira pessoa do singular com a primeira do plural (me desculpem os gramáticos). São memórias de uma pessoa, mas também de um grupo, de uma geração. Sugiro ler este texto ouvindo as músicas citadas, depois disso, realmente, nada foi como antes.


[1] Nada será, música de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

Discurso de Formatura para turma de 2010



Não tem importância, então, se as respostas que demos às nossas perguntas forem logo corrigidas pelo tempo; o adolescente também ignora as futuras transformações desse rosto que vê na água: indecifrável à primeira vista, como uma pedra sagrada coberta de talhos e signos, a máscara do velho é a história de algumas feições amorfas que um dia emergiram confusas, vagamente captadas por um olhar absorto. Em virtude deste olhar as feições se fizeram rosto e, mais tarde, máscara, significação, história.”  (Octávio   Paz)


O que podemos dizer sobre a história e o ofício do historiador, nesse momento, de “formatura”? Inicio minhas reflexões a partir dessa pergunta remetendo-me a um artigo que li semanas atrás sobre a necessidade das ciências humanas, e ai incluímos a história, de libertar-se do “jaleco do cientista” e da “retórica conceitual”, aproximando-se e, levando em conta, o senso comum e possibilidade da valorização de textos menos amarrados a jargões conceituais e mais próximos ao ensaio.
Faço essas considerações iniciais com o objetivo de dizer aqui que o conhecimento produzido pela história e pelas ciências humanas, em geral, é constantemente renovado, como também os métodos, as técnicas e as práticas de investigação e escrita. Isso quer dizer que esse é apenas um momento e um ritual de passagem, mas o historiador, seja ele pesquisador e ou professor de história, jamais deve abrir mão de uma formação continuada, de uma visada interdisciplinar de suas práticas e reflexões. Duas coisas fundamentais que tentei tratar com essa turma ao  longo do período em que estivemos juntos.
Se, por um lado, concordo que é necessário abrir mão do “jaleco do cientista”     e não amarrar nossas reflexões a jargões conceituais deformando nosso objeto para caber em sínteses analíticas estreitas, acredito também em algumas “palavras-conceitos” ainda são e serão fundamentais em nossa prática e é sobre elas, vou falar um pouco.
A primeira delas é a “experiência”, termo tão caro a autores como Benjamin e Thompson, e que nos ajuda compreender outras variáveis, como a idéia de tradição e transmissão cultural e também de identidade. Abrir mão da experiência é aniquilar o passado em nome de uma concepção de “progresso” a qualquer custo. O que é bastante discutido por todos nós. E, nesse sentido, alio ao conceito de experiência outro de fundamental importância para os “tecelões do tempo”, que somos nós, que é o conceito de Memória e seu par o esquecimento.
A memória do que fomos inclui o que queremos ser, ou o que estamos destinados a ser. A idéia do “progresso”, do “novo”, do “moderno” que nega isso é a mesma que possibilitou a ascensão do fascismo. E então acredito firmemente que, quando escolhi ser historiadora, foi por essa causa, lutar contra as práticas fascistas, porque o fascismo não foi apenas um movimento localizado num período específico da história. O fascismo é uma prática de mutilação de um passado, de sua negação absoluta em nome da mais devastadora novidade.
Acredito que como os poetas, os pintores, e todos os demais artistas, nossa função seja uma luta contínua a favor da experiência, da memória, de nossas vidas, do nosso grupo, das instituições e das relações humanas em geral.
Dito isso, tomo de empréstimo a canção de Marisa Monte feita para um profeta carioca chamado Gentileza que teve suas obras de arte pintadas em espaços públicos do Rio de Janeiro, encobertas por cal branca, num claro apagamento da memória de um homem considerado louco por uns e um poeta por outros. Ela diz:
“apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só restou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Precisamos  ver as letras e as palavras de Gentileza”
....Espero que meus queridos formandos e formandas tenham aqui, ao menos, aprendido  a, sensivelmente, abrir os olhos e ouvidos, nesse mundo moderno e agitado, para as palavras do poeta e os sentidos da memória, e que, assim como os artistas, denunciem ativamente e poeticamente as práticas que tentam encobrir nossa memória. E como nos ensinou Walter Benjamin ler a história à contrapelo, e descobrir por baixo da tinta cinza, dos cacos e dos fragmentos da memória o sentido de nossa vida e de nossa história.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dogville

Comentários sobre o filme do diretor Lars Von Trier, Dogville, de 2003.

Bruno Pereira de Oliveira – Ciências Sociais – UFG/CAC

Impacto. Choque. São dois possíveis adjetivos que caracterizam as primeiras cenas de Dogville, e por que não todo o filme. O cenário é inovador – na verdade o cenário é ausente... Onde estão as paredes, objetos, onde está tudo? – Até mesmo o cachorro não passa de um desenho no chão...
Creio ser proposital a ausência de construções concretas, pois parece representar que os habitantes de Dogville, mesmo não vendo o que acontece uns com os outros, podem deduzi-lo. Além disso, este artifício centra a total atenção nos personagens, o que faz até mesmo com que nos percamos um pouco da atenção, curiosos em relação ao que os outros personagens estão fazendo enquanto o foco centra-se em determinado ponto.
O cachorro é talvez o personagem mais importante. Ele não se comporta como cachorro, não se manifesta muito. Em contrapartida, as pessoas fazem o papel de cães. As necessidades mais animalescas das pessoas se sobressaem. O sexo, caracterizado pelo estupro, ganha um foco considerável.
A teoria rousseauniana do Bom Selvagem é arrasada. As pessoas são más por natureza. Quem não espera por uma reviravolta durante o filme e/ou não exulta com a vingança de Grace?
As duas cenas que, em meu ponto de vista, mais marcam e representam a essência do filme de Von Trier são, em primeiro lugar, quando Vera quebra dois dos bonecos de Grace e diz que se ela contiver suas lágrimas os outros serão poupados. E, no final, Grace vinga-se magistralmente ordenando que somente poupem os filhos de Vera se ela contiver suas lágrimas ao começarem a matá-los.
Quanto a Nicole Kidman. Simplesmente excepcional.
No início o filme parece ser cansativo, fato acentuado pela ausência de cenário e trilha sonora marcante, e, talvez atenuado pelas mudanças de luz que marcam as principais cenas. Porém as cenas são marcantes. Desnuda-se a essência das pessoas, seu individualismo, seus interesses, um fantástico jogo de metáforas, e, nesse processo, percebe-se o bom emprego que as quase três horas de filme representaram.
Dogville e seus habitantes transcendem o tempo e o espaço. Podem ser colocados em qualquer lugar e em qualquer tempo.
A grande crítica do filme é de caráter social... Em grande estilo nos é perguntado o que realmente somos.

Resenha: Nenhum a Menos: uma leitura das contradições da China moderna

Selecionei 2 resenhas de filmes da disciplina História e Cinema para publicar no blog. Segue abaixo a resenha do filme Nenhum a menos.


Cássia Pereira da Silva

O filme Nenhum a Menos, de Zhang Yimou, retrata de forma quase documental um aspecto pouco conhecido da nação chinesa - a evasão escolar justificada pela pobreza, especialmente na área rural no interior do país asiático. Além de demonstrar a perseverança e tenacidade do povo chinês.
Apesar do gradual desenvolvimento econômico evidenciado a partir da década de 90, a China ainda apresenta relevantes problemas sociais, como por exemplo, o sistema educacional no interior chinês. Percebe-se claramente que o progresso ainda não alcançou boa parte da população chinesa.
O filme aborda os problemas população rural ao contar a história de uma jovem (Wei Minzhi) de apenas 13 anos, que é contratada como professora substituta de uma pequena aldeia, tendo a missão de garantir que nenhum dos alunos e alunas abandone a escola. Quando um dos alunos (Zhang Huike) vai trabalhar na cidade grande, a professora sai numa obstinada missão à sua procura, a fim de convencê-lo a retornar. Percebe-se que a jovem professora é uma menina tímida, inexperiente e sem credibilidade diante das crianças acabando por ficar perdida em meio à turma. Wei faz a chamada a cada novo dia e depois passa para os alunos os deveres de cópias das lições escritas no quadro negro, mas não se preocupa muito se eles estão aprendendo realmente, ela só quer que eles não abandonem a escola.
Um fator interessante do filme é o cenário, a vila de Shuiquan, é árida e extremamente pobre. A escola é simples e extremamente carente de recursos educacionais. Wei dispõe de apenas um giz para cada dia de aula, economizando-os o máximo possível. Ninguém possui livros, a mesa do professor está quebrada, e os alunos e alunas sentam-se em bancos de madeira desconfortáveis. Wei e alguns alunos dormem na própria escola, sendo que, as camas dos alunos são improvisadas com as carteiras da classe. Esta realidade evidenciada no filme é comparável ao que ocorre em pequenas cidades e zona rural do nordeste brasileiro, uma vez que ali a terra é árida, as estradas não são conservadas, as escolas estão caindo aos pedaços, há fome e analfabetismo em larga escala. Há uma alta evasão escolar nesses lugares, pois para ajudar no sustento da família as crianças largam a escola muito cedo, antes dos 14 anos, para ir até a cidade grande mais próxima e arranjar subempregos, ou mesmo mendigar. Ou seja, uma extrema pobreza também assola uma grande parte da população brasileira assim como na China moderna.
Como mostrado no filme a pobreza fez com que o aluno Zhang Huike fosse para a cidade grande em busca de trabalho. Diante dessa situação Wei decide ir em busca de Zhang Huike e para isso todos os alunos assumiram a responsabilidade no resgate do colega colaborando na arrecadação de fundos, mesmo que para isso tivessem que submeter ao trabalho braçal numa olaria. É interessante observar, tanto no começo até o fim dessa trajetória, a recusa da personagem em desistir antes da realização do seu objetivo, o que demonstra a tamanha obstinação e determinação do povo chinês.
Outro fator observado no filme são as discrepâncias da modernidade existentes nas cidades grandes e industrializadas, onde prosperidade e extrema carência “andam de mãos dadas”. Apesar do crescimento econômico, apenas uma pequena parcela da população usufrui dos benefícios desse crescimento, enquanto a maior parte da população ainda permanece na miséria. O realismo social de Nenhum a Menos também é obtido pela quase ausência de música. Os sons presentes no filme são em sua maioria referentes a passos, diálogos, sobre um fundo de ruídos do campo ou o barulho do trânsito e do “corre-corre” da cidade grande, na segunda parte do filme. E isto traz ao filme grande realidade.
Desta forma, Nenhum a Menos, realiza uma crítica social contundente demonstrando claras preocupações sociais, relativas às condições da interioridade na China moderna, além de remeter o espectador às realidades vividas em seu próprio país.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Aula de quarta (06/10)

Caros alunas e alunos da disciplina História e Cinema

Nessa semana não haverá aula. Estarei numa banca na Unesp/Franca-SP. Por favor escolham um filme e façam uma resenha sobre ele. Aqui vão algumas sugestões:
Dogville
O Poderoso Chefão
Kill Bill
La Nave Va
Oito e Meio
Eu, tu, ele
Cabra marcado para morrer
Pixote
Carlota Joaquina
Marvada Carne
Memórias do Cárcere
Aleluia, Gretchen
O quatrilho
Central do Brasil
O caminho das nuvens

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cinema à prova de morte: a genialidade de Tarantino

Só há uma palavra para descrever o filme À prova de morte de Quentin Tarantino: genial!
Em tempos de imagens 3D, HD, o diretor recupera as imagens distorcidas, disformes, riscadas dos filmes assistidos nas televisões dos anos de 1970. Baixíssima resolução de imagens, mas altíssimo potencial para tratar do tema-cinema. A volta ao analógico em tempos de alta definição de linhas leva os espectadores ao estranhamento: afinal quando foi feito o filme? Será mesmo este um filme do fim da primeira década do segundo milênio? Debochando de todos Tarantino diz que sim!
Para além do roteiro que explora o tema da violência e da paixão por carros, há um outro roteiro. Escondido nas entrelinhas há um debate sobre cinema e mída, e a todo o universo de pessoas a ele ligados: a radialista, os dublês, a jovem aspirantes a atriz, a maquiadora.
O diretor também se insere no filme como um barman que ordena: - acenda-se a luz! Como o mestre Hitchcock , Tarantino torna-se personagem, mas sem a discrição daquele. O personagem/vilão é, sem dúvida, uma figura impar. Kurt Russel em seu carro à prova de morte e suas taras por pés e bundas é absolutamente trash.
Lembramos de Crash, mas sem o teor cáustico dos filmes de Cronenberg. Lembramos também de todos os filmes hollywoodianos que elegem o carro como seu personagem principal. Mas aqui há uma diferença. São as mulheres desbocadas, descoladas, que os dirigem e realizam a catártica vingança contra o vilão mal caráter.
Por isso tudo, para alguém que viu o filme uma única vez, três anos após o seu lançamento em Hollywood, numa sala do cinema no Shopping de Catalão, vale a pena divulgar. Vejam, vejam, vejam....

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vamos ao cinema

Queridos alunos e alunas

Vamos ao cinema na quarta (25/08). A proposta é assistir ao polêmico À Prova de Morte do diretor Quentin Tarantino. O filme aparece classificado ora como ação, ora como terror, mas parece se tratar das duas coisas. Quem quiser assistir ao trailer veja o site abaixo:
http://www.cinepop.com.br/filmes/grindhouse_provademorte.htm
Tarantino é um jovem diretor, ator e roteirista que iniciou sua carreira no cinema independente. Vale a pena ver também do diretor os filmes Pulp Fiction; Cães de Aluguel e Kill Bill. A temática da violência é sempre presente em seus filmes, no entanto, mesmos os apreciadores mais sensíveis do cinema se dispõem a assistí-los. Então nos encontramos no Shopping Catalão para vê-lo. Horário: 18:50.
Abçs
Regma

Ps: Outras dicas: Não percam os filmes "Meu Malvado Favorito" e "A origem", assim que chegarem a Catalão corram para o cinema.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Grupos dos Seminários de História e Cinema

Grupo 1 - Isadora, Dayane, Gláucia, Patrícia, Gullyt, Letícia, Lia
Texto: Elementos de linguagem e história do cinema

Grupo 2 - Laiane, Rafael, Ana Cecília, Jaciely, Rafaela, Janaina, Fabiola, Luciene, Valdira
Texto: A história e o filme documentário

Grupo 3 - Bruno, Bruna, Érika, Vivan, Raquel, Celmo, Marcelo, Marcela Afonso
Texto: História, documento e exclusão social

Grupo 4 - Valéria, Fabiana, Meiriane, Angélica, Lara Cristina, Mário, Cássia, Daliza
Texto: O Estado pós-64 e a reordenação do campo cinematográfico

Grupo 5 - Thales, Crislane, Carlos Eduardo, Sandro Barbosa, Maria Tereza, Ana Luiza, Ana Carolina, Davi
Texto: Figurações, mitificações e modernização: visões do nordeste na cinematografia brasileira

Grupo 6 - Gustavo, Joaquim, Lara Gomes, Ludmila, Luiz Gustavo, Marcela Pires, Sandra Regina, Tito
Texto: História e cinema: um debate metodológico

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DISCIPLINA HISTÓRIA E CINEMA

ALUNOS MATRICULADOS:

ANA CECILIA MOREIRA ELIAS
ANA LUIZA DE OLIVEIRA SILVA
ANGELICA LINO PINTO
ANNE CAROLINE ARAÚJO FARIA
BRUNA FERREIRA DE SOUZA
BRUNO PEREIRA DE OLIVEIRA
CARLOS EDUARDO MOREIRA MACEDO
CASSIA PEREIRA DA SILVA
CELMO ANTÔNIO DE ARAUJO
CRISLANE CALIXTO PEREIRA
DALIZA SANTOS ALVES
DAVI VITAL DA COSTA
DAYANE PINHEIRO SILVA
ERIKA DE SOUZA SILVA
FABIANA DA SILVA FONSECA
FABIOLA RODRIGUES DE SENA
GLAUCIA CELESTINO PIRES
GULLYT VINICIUS CAIXETA
GUSTAVO HENRIQUE MARQUES RIBEIRO
ISADORA OLIVEIRA ROCHA
JACIELY SOARES DA SILVA
JANAINA NAYARA DE PAULA
JOAQUIM LUIS ALVES DO AMARAL
LAIANE FERNANDES JERONIMO
LARA CRISTINA FREITAS ROSA
LARA GOMES REGO
LETICIA REZENDE PACHECO
LIA GABRIELA DA COSTA
LUCIENE SUCUPIRA DE AMORIM
LUDMILA MARIA DE OLIVEIRA SOBRINHO
LUIZ GUSTAVO FERREIRA FELÍCIO
MARCELA AFONSO RODRIGUES
MARCELA PIRES DA SILVA
MARCELO RODRIGUES ASSUNCAO
MARIA TEREZA DUARTE
MÁRIO ALBERTO DE PAULA
MEIRIANE GOMES LEONEL
PATRICIA MENDES DE OLIVEIRA
RAFAEL JUNIOR DA SILVA
RAFAELA CRISTINA GONÇALVES
RAQUEL ROSA RAMOS
SANDRA REGINA DE SOUSA GUSSON
SANDRO BARBOSA E SILVA
THALES HENRIQUE RODRIGUES GODOY
TITO NAFITALI NOGUEIRA DOS SANTOS
VALDIRA CARDOSO DE MENEZES
VALÉRIA CRISTINA FURTADO DE SOUSA MOURA
VIVIAN MARIA DA SILVA DIAS

segunda-feira, 6 de julho de 2009

"Estômago": ou a dor e a delícia de ser o que é

O filme do estreante em direção Marcos Jorge nasceu da idéia de um conto de Lusa Silvestre "Presos pelo Estômago", do livro "Pólvora, Gorgonzola e Alecrim". Nasce daí o primeiro encontro entre artes: literatura e cinema, que irá gerar outro: cinema e comida. A história tem início com a chegada de Raimundo Nonato (João Miguel) na cidade grande na esperança de conquistar uma vida melhor.
O personagem revela, já no início do filme, seu talento para a cozinha. Contratado por um dono de botequim transforma suas coxinhas e pastéis em chamariz para os clientes. O bar torna-se um sucesso. Por lá personagens importantes da história terão seu primeiro contato com Raimundo: a prostituta Íria (Fabiula Nascimento), e também Giovanni (Carlo Briani), que experimentando sua saborosa comida o contrata como assistente de cozinheiro de um restaurante italiano. A primeira lição foi dada ali, sua habilidade e capacidade para misturar os ingrediente e o sabor de sua comida revelam o caminho a seguir.
Conseguir status, reconhecimento e poder, por meio da cozinha, é o que o ensina o novo patrão. Desde o ponto de cozimento do macarrão, e o momento exato de fritar o alho, a reconhecer as partes mais saborosas (e caras) da carne de vaca, a aprender o que é o queijo gorgonzola, e como transformar, o famoso Romeu e Julieta, em um prato sofisticado, utilizando-o em substituição ao queijo minas; a reconhecer, no mercado, as melhores frutas e verduras e também os melhores vendedores e suas famílias.
Tudo isso faz parte do ritual de aprendizado que Nonato irá utilizar em outro momento do filme, que entrecruza os momentos acima descritos com a entrada de Raimundo Nonato na prisão. Em situações simultâneas vamos acompanhando o poder que aquele que agora se denomina “Nonato Canivete”, conquista no xadrez ao tornar-se cozinheiro do grupo. O líder da cela consegue todos os ingredientes para que o “Parmalat” ou “Alecrim”, como o chamam, possa transformar a horrível comida do presídio.
Num banquete inusitado, na cozinha da prisão, Nonato deixa a todos enfastiados pela boa comida e, a partir dali, com a morte do líder assume o beliche de cima, sonhando em ter uma cela só para ele. Os exercícios de saber e poder ali se evidenciam. Na aprendizagem da culinária com “Seu Giovani”, Nonato descobriu também que boa comida, sexo e poder se equivalem, conforme as metáforas do dono do restaurante e também amante de Íria, a quem Nonato propôs casamento.
Da simplicidade e ingenuidade de um imigrante surge um homem tomado por um sentimento de vingança. O desfecho do filme nada fica a dever a Peter Greenway que fez o brilhante “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”, que traz também outras metáforas sobre os prazeres, e, também, porque não dizer, desprazeres à mesa.
Se a culinária é uma arte, é no estômago que ela encontra seu espaço de devoração e transformação. Ali também ruminamos sobre todos os dissabores da vida. É a partir dali que a vida se mantém. Opostos interessantes como aqueles que o filme aborda.
A antropofagia tem aqui sua outra face. Nonato devorou, não apenas o saber do seu patrão, mas também as metáforas, como verdades, realizando interpretações próprias sobre a arte que aprendeu. A partir daí seus usos e práticas serão os mais variados possíveis.
Não por acaso o filme recebeu, somente no exterior, quatorze premiações. Assisti-lo é um prazer, pois a soma dos ingredientes produziu um “prato” requintado e simples. Excelente roteiro, boa direção, atores magistrais fazem parte dessa receita. Portanto, saboreiem essa obra de arte, que é o cinema.