domingo, 11 de dezembro de 2011

Manjar la comida catalã

Conhecer outros países parece ser um desafio, por vezes, saboroso. É claro que em todos os sentidos, dizer que se “conhece” um pais estando tão pouco tempo ali, soa, na verdade, muito pretensioso. Por isso prefiro deixar claro aqui que se trata de experiências muito pessoais com todos os condicionamentos que isso implica.
A sensação que temos quando chegamos aqui é que o espanhol come muito. Os horários são diferentes dos nossos e, por exemplo, quando já vamos almoçar por volta de 11:30 ou 12:00 os espanhóis comem um bocadilho, que pode ser metade de um baguete recheado com “jamon” que é uma espécie de presunto cultuado por eles.
O almoço só começa a ser servido por volta das 13:00 , e tem primeiro, segundo, terceiro prato e para finalizar um café. Respeitando esses horários as lojas dos bairros que só abrem depois das 9:00, fecham-se por volta das !4:00 e só são reabertas por volta das 16:30, funcionando em geral até as 20:00 hs. Para beber sempre uma boa cava, e também vinhos muito bem avaliados. Aqui come-se também muito pão, cujas receitas são variadas e saborosas.


As vitrines das “panaderias” são verdadeiros espetáculos para os olhos e para o paladar. Receitas antiqüíssimas de doces, merengues, quintadas são mantidas principalmente em lojas da cidade velha.
Os peixes também são muito consumidos aqui e a paella de marisco a mim me pareceram as mais saborosas. O bacalhau que provamos num restaurante chama La Taverna, foi especial, pois servido com uma espécie de ratatouille (verduras com molho vermelho). O restaurante também é muito interessante, uma espécie de museu da publicidade. Apresento aqui uma delas, na qual o dragão vencido por São Jorge(padroeiro da cidade), aparece mais uma vez.

 


Creio não ser por acaso que o cozinheiro número 1 do mundo chamando Ferran Adrià vive em Barcelona. Seu restaurante “El Bulli” foi recentemente fechado e a Folha de São Paulo lhe dedicou uma enorme matéria. Para muitos Adrià faz com a comida o que Gaudi fez com a arquitetura, uma revolução em nossos sentidos e percepções. Pena que, com certeza, jamais desfrutarei desse prazer! Pelo menos pude desfrutar um pouco dos temperos, cheiros, sabores, cores da comida da Catalunha.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entre dragões e torres: a arte de educar em Barcelona

É interessante observar aqui em Barcelona a forma como pensam e praticam o que chamamos “educação”. Pensamos que aqui esse termo é como se fosse a alma do povo, e não há como pensá-la sem compreender o mais profundo sentido que esse tema tem para as pessoas comuns.

Posso citar alguns exemplos práticos que vivenciei aqui para justificar minhas considerações acima. Trouxe meu filho de quase 5 anos para cá e nesse curto espaço de tempo tornei-me uma observadora atenta de como as crianças são tratadas aqui. No primeiro dia que saímos pela cidade levamos nosso filho à universidade, ao virar o quarteirão nos deparamos com um verdureiro que brincou com ele e disse: “no anar a l'escola?”

A partir dai começou toda uma série de situações, nas quais os olhares se voltavam para nós, como se estivessemos burlando uma conduta, um código, uma prática social. Voltamos para casa convictos que deveríamos matricular o Heitor em uma escola mesmo que fosse apenas por 2 meses. E por esse fato pude entrar dentro de uma escola catalã e observar suas práticas e métodos.

Devo falar dessa perspectiva institucional em outro momento, porque o interessante de processo de reconhecimento veio aos poucos, por meio de observações cotidianas . Uma das mais interessantes foi ver uma criança entre 2 e 3 anos, vindo da escola com o seu avô. Ela carregava uma mochila nas costas que parecia mais pesada que ela. Então ele caia e rolava no chão como uma bola tentando se levantar com o peso da mochila, e o avô apenas observava. Quando começei a buscar o Heitor na escola, vi esta cena se repetindo várias vezes, como se fosse comum. E eu carregando um menino de quase 5 anos no colo!

Começei a compreender que isso faz parte de um processo de educação para a vida que, para mim, tem haver com a alma anarquista desse povo: educa-se para a autonomia e a responsabilidade. Cada um, desde cedo, carrega a mochila que lhe é destinada e assim para o resto de suas vidas.

Ao visitar a Sagrada Família, tão linda, imponente, majestosa, fruto de uma obsessão, não apenas do Gaudi, mas de uma sociedade, e sobre a qual também formulei algumas hipóteses, o que mais me chamou atenção foi uma pequena construção ao seu lado, que é a escola que Gaudi projetou para ensinar aos filhos dos operários que trabalhavam em sua construção.


Quando vemos as pinturas de Miró também não podemos deixar de pensar no sentido que a infância tem para o povo catalão. João Cabral de Melo Neto o homenageou em um poema, que creio ser uma síntese dessa sociedade, que aprende com os “niños e niñas” as lições sobre como lidar com o inesperado, com o que não é adestrado, com o desconhecido. E, a partir dai, compreendo porque Heitor quis pintar de rosa a Sagrada Família e encontrar dragões pela cidade.



O sim contra o sim

João Cabral de Melo Neto:

Miró sentia a mão direita

demasiado sábia

e que de saber tanto

já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse

o muito que aprendera,

a fim de reencontrar

a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se

a desenhar com esta

até que, se operando,

no braço direito ele a enxerta.

A esquerda (se não se é canhoto)

é mão sem habilidade:

reaprende a cada linha,

cada instante, a recomeçar-se.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Barcelona: um carrossel de diversidade


Creio que uma das coisas mais impactantes quando chegamos à cidade de Barcelona é perceber como essa sociedade funciona tão bem, apesar, e para além de, abrigar aqui pessoas das mais diversas raças, religiões, costumes, países e culturas.
Viver na cidade nos dá uma mostra bastante evidente dessa diversidade e dessa convivência. Moramos em Navas, um bairro próximo à Av. Meridiana, uma das principais da cidade. Aqui, como em muitas partes das cidades multiplicam-se os bazares, os restaurantes e as “panaderias” chinesas.
Diferentemente da aparente “rudeza”, da fala ríspida, do passo apresado dos espanhóis, os chineses são extremamente atenciosos, calmos, prestativos. O garçom de um restaurante na esquina de nosso apartamento definiu bem, o modo de viver dos espanhóis: “para nosotros, 5 minutos son 2”! E é a mais pura verdade, basta olharmos para o caixa do restaurante espanhol e a conta já está em nossa mesa. Os trens de metro e, pasmem, os ônibus de linha têm suas paradas rigidamente controladas por um placar eletrônico que avisa se vamos aguardar 40 segundos ou 5 minutos a sua chegada.
Os paquistaneses, africanos, indianos, árabes, também estão bastante presentes aqui. Cheguei a ver uma mulher usando burca, empurrando um carrinho de bebê, só com os olhos à mostra. Parece que também há uma migração forte de países, como Rússia, Ucrânia e outros do leste europeu, mas que por suas características físicas, não conseguimos distinguir tão claramente.
Os paquistaneses e indianos também atuam bastante no setor de serviços e costumam ser também muito atenciosos e prestativos. A língua parece não ser um problema para eles. Falam tanto o catalão, como o espanhol. Seus filhos, com certeza, falarão 4 línguas. A sua de origem, que se fala em casa; o catalão,  o espanhol e o inglês que se aprende na escola, a partir dos 3 anos de idade.
Na escola de meu filho há muitos chineses, indianos, árabes e africanos. E essa mescla se espalha pela cidade. Levei o Heitor a um carrossel, e, não sei se por coincidência, havia uma criança africana, uma indiana, uma chinesa, gêmeos espanhóis e o brasileirinho do Heitor. Creio que, até agora, essa foi a melhor síntese/metáfora que consegui fazer da cidade:um carrossel de diversidade.
À porta da escola essa experiência se repete, mas como passar  dos dias, vou considerando muito natural e familiar, o que antes parecia estranho e desconexo. Algumas mães falam árabe, outras, inglês, mandarim, espanhol, e catalão. É verdadeira Babel, mas ali parece que todos se entendem.
Acima disso tudo as torres da Sagrada Família, de um lado, e a torre Agbar de outro, parecem, estar sempre vigilantes, a tudo que se passa por aqui. Acima delas só o guindaste do Parc Tibidado  que, no ponto mais alto da cidade, eleva as pessoas mais corajosas, acima do acima”. Parece ser esse o desejo que povoa o imaginário daqueles que aqui vivem. Depois de ter compreendido um pouco melhor a história da cidade, passo a conjecturar que, o fato de a cidade ter sido cercada por muralhas durante quase 7 séculos e ser constantemente vigiada sob a mira de canhões, moldou  a perspectiva vertical  de sua arquitetura  e de seus guindastes.  Por outro lado, creio que isso também revela o quão silenciosa é a cidade, até meu filho de 5 anos percebeu isso. Para os ruidosos brasileiros, o silêncio de Barcelona é , por vezes, embaraçoso.  No metrô, no ônibus, nas ruas, caminhar com crianças é um verdadeiro exercício de contenção. Mas sobre esse assunto escrevo depois.....

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre o grande moleque Tião que se tornou Otelo


Assisti ontem a peça “Moleque Tão Grande Otelo”. Uma proposta que poderia correr o risco de ser mais uma narrativa biográfica, transformou-se num espetáculo digno daquele que o nomeia.
Temos ali a grata surpresa de entrar no espetáculo pela escada do espaço Cultural Veredas, que abriga a peça, distribuída pelos diversos cômodos de uma casa.
Outro aspecto interessante é que este espaço é situado na Praça Tubal Vilela, local onde um busto de Grande Otelo olha para os transeuntes, que por esse “lugar de memória”, podem, de repente, percebê-lo e perguntar: quem é esse sujeito?
A resposta será dada atravessando a rua. Saímos com a sensação de que, num espetáculo de pouco mais de uma hora, sua vida foi a nós revelada. Suas peraltices de menino, sua paixão pela arte, seu destemor pelo novo, sua ousadia e coragem, suas fraquezas, seus enfrentamentos cotidianos, suas desilusões, suas ilusões...
O mote para o início da dramaturgia é uma conversa com Orson Wells que o pergunta sobre a visita que faz a Uberlândia quando da inauguração de um teatro que levaria o seu nome. Dessas perguntas nascem as rememorações do moleque Tião, sobre a avó, a mãe, a escola, a Mogiana, a ida para a cidade grande.
Depois entramos por sua vida adulta no teatro, na música, no cinema. Cenas antológicas de sua filmografia são ali relembradas como a “Boneca de Pixe” e a cena do balcão de Romeu e Julieta do filme feito com Oscarito. A trágica morte de sua mulher e de seu filho é também tratada com a sobriedade e intensidade que merece.
Ao final o julgamento. Absolve-se ou condena-se Grande Otelo por sua vida errante e, ao mesmo tempo, encantadora. Compreendemos que a arte o liberta. Sebastião Prata transformou-se irremediavelmente e, para sempre, em Grande Otelo.
O grupo Athos de Teatro e toda a equipe de produção e direção mereceram os aplausos efusivos dos que ali estiveram. Que mais pessoas possam compartilhar dessa bela homenagem! 

Regma Maria dos Santos

Exposição de fotos, como diria a Lena: O tempo passa...e nós não estamos nem ai...

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Dançando com RPM

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Valdeci e Lu - bom papo

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Geraldinho e Sandra no embalo

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As meninas: Chris, Lena, Gigi, Maria Joana, Ângela, Regma

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Reencontro das turmas de História dos anos 80

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“Sei que nada será como antes, amanhã”

“Sei que nada será como antes, amanhã”[1]


            Regma Maria dos Santos

            No início da década de 1980, aos 17 anos de idade, ingressei na Universidade Federal de Uberlândia para o extinto (graças a Deus e aos homens) curso de Estudos Sociais com licenciatura em História.
            A dimensão de estranhamento acompanhou-me durante um bom tempo, já que vinha de uma escola pública, o Museu, no qual éramos severamente cobrados por disciplina e impedidos de discutir qualquer tema político, mesmo de portas fechadas. Não foi fácil entrar num espaço no qual não havia a disciplina férrea do colégio e onde se podia falar de tudo a todos.
            Não faltavam nas nossas bibliografias as referências ao marxismo, ao próprio Marx e a todos os marxistas. Discutia-se política com fervor. Fazia-se política com fervor. Não por acaso, daquelas turmas do curso de História, saíram políticos de carreira, assessores, líderes sindicais e partidários, presidentes de associações, dentre outros.
            A mobilização do sindicato dos professores era presente nos cursos de licenciatura. Greves pululavam, manifestações nos corredores do curso de História e na Universidade eram comuns. Questionava-se tudo, dizia-se tudo o que se pensava, mesmo a quem não quisesse ouvir. Eu, perplexa e encantada ao mesmo tempo!
            No país, os movimentos pelo fim da ditadura davam o tom político do momento. Havia uma intensa mobilização social para isso. “Para não dizer que não falei das flores” os tempos eram outros, mas nem tanto assim...Vi amigos serem presos por coordenarem atos de protesto em praça pública. A Universidade, de alguma forma, estava lá, nas manifestações dos sindicatos, das associações, e também do movimento das “Diretas Já(z)”. Já havíamos aprendido que “a vida não se resume a festivais”.
            Ali construí minhas amizades mais duradouras e consistentes. Apadrinhei casamentos e filhos. Amizades, rancores, expectativas tiveram ali seu espaço. Tivemos também a visita do cometa Halley que reuniu, numa vigília noturna, centenas de alunos da Universidade para assistir à sua passagem. Esse momento, dentre outros, faz parte das vivências pulsantes de jovens que, na casa de seus vinte e poucos anos, experimentavam e foram fundamentais para o seu “vir-a-ser”.
            Os especiais anos 80 do século XX foram de transição, de passagem (não só do cometa). Nossa percepção também se alterara. Assistimos o proibido “Je vous salue, Marie” no auditório da Biblioteca. Fazíamos sessões de vídeo para conhecer o cinema europeu e até mesmo o cinema brasileiro. Ouvíamos influenciados pela música popular brasileira dos anos 60 e 70, o rock dos Titãs, Paralamas, Legião Urbana..., que embalavam nossas festas e comemorações, especialmente as das sextas-feiras à noite. “Vaca profana” era a música tema de nossas festas na casa da Leninha. Os bares do “Zé Beijinho”, do Kabata e do Tio Afonso e também o DAGEMP, eram nossos pontos de encontro.
            Cantávamos a revolução (ouvindo RPM), mas não apenas aquela que abalaria as estruturas políticas da nação, mas também aquela do cotidiano: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” (Titãs), era um refrão intensamente repetido.
            A memória daquele período ainda é viva, mas também seletiva e, por isso, às vezes cruel. Gostaria de lembrar certos detalhes, mas eles escapam, diluem-se na bruma do tempo. Esse exercício de rememoração permitiu-me reencontrar certos sentidos à muito encobertos: cores, cheiros, texturas, sons e os seus significados. Não conseguiria traduzi-los aqui em palavras, numa única crônica.
            Aqui ficam as impressões e sensações de quem viveu esse período, mas não sozinha, e por isso misturei a primeira pessoa do singular com a primeira do plural (me desculpem os gramáticos). São memórias de uma pessoa, mas também de um grupo, de uma geração. Sugiro ler este texto ouvindo as músicas citadas, depois disso, realmente, nada foi como antes.


[1] Nada será, música de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

“Sei que nada será como antes, amanhã”

“Sei que nada será como antes, amanhã”[1]


            Regma Maria dos Santos

            No início da década de 1980, aos 17 anos de idade, ingressei na Universidade Federal de Uberlândia para o extinto (graças a Deus e aos homens) curso de Estudos Sociais com licenciatura em História.
            A dimensão de estranhamento acompanhou-me durante um bom tempo, já que vinha de uma escola pública, o Museu, no qual éramos severamente cobrados por disciplina e impedidos de discutir qualquer tema político, mesmo de portas fechadas. Não foi fácil entrar num espaço no qual não havia a disciplina férrea do colégio e onde se podia falar de tudo a todos.
            Não faltavam nas nossas bibliografias as referências ao marxismo, ao próprio Marx e a todos os marxistas. Discutia-se política com fervor. Fazia-se política com fervor. Não por acaso, daquelas turmas do curso de História, saíram políticos de carreira, assessores, líderes sindicais e partidários, presidentes de associações, dentre outros.
            A mobilização do sindicato dos professores era presente nos cursos de licenciatura. Greves pululavam, manifestações nos corredores do curso de História e na Universidade eram comuns. Questionava-se tudo, dizia-se tudo o que se pensava, mesmo a quem não quisesse ouvir. Eu, perplexa e encantada ao mesmo tempo!
            No país, os movimentos pelo fim da ditadura davam o tom político do momento. Havia uma intensa mobilização social para isso. “Para não dizer que não falei das flores” os tempos eram outros, mas nem tanto assim...Vi amigos serem presos por coordenarem atos de protesto em praça pública. A Universidade, de alguma forma, estava lá, nas manifestações dos sindicatos, das associações, e também do movimento das “Diretas Já(z)”. Já havíamos aprendido que “a vida não se resume a festivais”.
            Ali construí minhas amizades mais duradouras e consistentes. Apadrinhei casamentos e filhos. Amizades, rancores, expectativas tiveram ali seu espaço. Tivemos também a visita do cometa Halley que reuniu, numa vigília noturna, centenas de alunos da Universidade para assistir à sua passagem. Esse momento, dentre outros, faz parte das vivências pulsantes de jovens que, na casa de seus vinte e poucos anos, experimentavam e foram fundamentais para o seu “vir-a-ser”.
            Os especiais anos 80 do século XX foram de transição, de passagem (não só do cometa). Nossa percepção também se alterara. Assistimos o proibido “Je vous salue, Marie” no auditório da Biblioteca. Fazíamos sessões de vídeo para conhecer o cinema europeu e até mesmo o cinema brasileiro. Ouvíamos influenciados pela música popular brasileira dos anos 60 e 70, o rock dos Titãs, Paralamas, Legião Urbana..., que embalavam nossas festas e comemorações, especialmente as das sextas-feiras à noite. “Vaca profana” era a música tema de nossas festas na casa da Leninha. Os bares do “Zé Beijinho”, do Kabata e do Tio Afonso e também o DAGEMP, eram nossos pontos de encontro.
            Cantávamos a revolução (ouvindo RPM), mas não apenas aquela que abalaria as estruturas políticas da nação, mas também aquela do cotidiano: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” (Titãs), era um refrão intensamente repetido.
            A memória daquele período ainda é viva, mas também seletiva e, por isso, às vezes cruel. Gostaria de lembrar certos detalhes, mas eles escapam, diluem-se na bruma do tempo. Esse exercício de rememoração permitiu-me reencontrar certos sentidos à muito encobertos: cores, cheiros, texturas, sons e os seus significados. Não conseguiria traduzi-los aqui em palavras, numa única crônica.
            Aqui ficam as impressões e sensações de quem viveu esse período, mas não sozinha, e por isso misturei a primeira pessoa do singular com a primeira do plural (me desculpem os gramáticos). São memórias de uma pessoa, mas também de um grupo, de uma geração. Sugiro ler este texto ouvindo as músicas citadas, depois disso, realmente, nada foi como antes.


[1] Nada será, música de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

Discurso de Formatura para turma de 2010



Não tem importância, então, se as respostas que demos às nossas perguntas forem logo corrigidas pelo tempo; o adolescente também ignora as futuras transformações desse rosto que vê na água: indecifrável à primeira vista, como uma pedra sagrada coberta de talhos e signos, a máscara do velho é a história de algumas feições amorfas que um dia emergiram confusas, vagamente captadas por um olhar absorto. Em virtude deste olhar as feições se fizeram rosto e, mais tarde, máscara, significação, história.”  (Octávio   Paz)


O que podemos dizer sobre a história e o ofício do historiador, nesse momento, de “formatura”? Inicio minhas reflexões a partir dessa pergunta remetendo-me a um artigo que li semanas atrás sobre a necessidade das ciências humanas, e ai incluímos a história, de libertar-se do “jaleco do cientista” e da “retórica conceitual”, aproximando-se e, levando em conta, o senso comum e possibilidade da valorização de textos menos amarrados a jargões conceituais e mais próximos ao ensaio.
Faço essas considerações iniciais com o objetivo de dizer aqui que o conhecimento produzido pela história e pelas ciências humanas, em geral, é constantemente renovado, como também os métodos, as técnicas e as práticas de investigação e escrita. Isso quer dizer que esse é apenas um momento e um ritual de passagem, mas o historiador, seja ele pesquisador e ou professor de história, jamais deve abrir mão de uma formação continuada, de uma visada interdisciplinar de suas práticas e reflexões. Duas coisas fundamentais que tentei tratar com essa turma ao  longo do período em que estivemos juntos.
Se, por um lado, concordo que é necessário abrir mão do “jaleco do cientista”     e não amarrar nossas reflexões a jargões conceituais deformando nosso objeto para caber em sínteses analíticas estreitas, acredito também em algumas “palavras-conceitos” ainda são e serão fundamentais em nossa prática e é sobre elas, vou falar um pouco.
A primeira delas é a “experiência”, termo tão caro a autores como Benjamin e Thompson, e que nos ajuda compreender outras variáveis, como a idéia de tradição e transmissão cultural e também de identidade. Abrir mão da experiência é aniquilar o passado em nome de uma concepção de “progresso” a qualquer custo. O que é bastante discutido por todos nós. E, nesse sentido, alio ao conceito de experiência outro de fundamental importância para os “tecelões do tempo”, que somos nós, que é o conceito de Memória e seu par o esquecimento.
A memória do que fomos inclui o que queremos ser, ou o que estamos destinados a ser. A idéia do “progresso”, do “novo”, do “moderno” que nega isso é a mesma que possibilitou a ascensão do fascismo. E então acredito firmemente que, quando escolhi ser historiadora, foi por essa causa, lutar contra as práticas fascistas, porque o fascismo não foi apenas um movimento localizado num período específico da história. O fascismo é uma prática de mutilação de um passado, de sua negação absoluta em nome da mais devastadora novidade.
Acredito que como os poetas, os pintores, e todos os demais artistas, nossa função seja uma luta contínua a favor da experiência, da memória, de nossas vidas, do nosso grupo, das instituições e das relações humanas em geral.
Dito isso, tomo de empréstimo a canção de Marisa Monte feita para um profeta carioca chamado Gentileza que teve suas obras de arte pintadas em espaços públicos do Rio de Janeiro, encobertas por cal branca, num claro apagamento da memória de um homem considerado louco por uns e um poeta por outros. Ela diz:
“apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só restou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Precisamos  ver as letras e as palavras de Gentileza”
....Espero que meus queridos formandos e formandas tenham aqui, ao menos, aprendido  a, sensivelmente, abrir os olhos e ouvidos, nesse mundo moderno e agitado, para as palavras do poeta e os sentidos da memória, e que, assim como os artistas, denunciem ativamente e poeticamente as práticas que tentam encobrir nossa memória. E como nos ensinou Walter Benjamin ler a história à contrapelo, e descobrir por baixo da tinta cinza, dos cacos e dos fragmentos da memória o sentido de nossa vida e de nossa história.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dogville

Comentários sobre o filme do diretor Lars Von Trier, Dogville, de 2003.

Bruno Pereira de Oliveira – Ciências Sociais – UFG/CAC

Impacto. Choque. São dois possíveis adjetivos que caracterizam as primeiras cenas de Dogville, e por que não todo o filme. O cenário é inovador – na verdade o cenário é ausente... Onde estão as paredes, objetos, onde está tudo? – Até mesmo o cachorro não passa de um desenho no chão...
Creio ser proposital a ausência de construções concretas, pois parece representar que os habitantes de Dogville, mesmo não vendo o que acontece uns com os outros, podem deduzi-lo. Além disso, este artifício centra a total atenção nos personagens, o que faz até mesmo com que nos percamos um pouco da atenção, curiosos em relação ao que os outros personagens estão fazendo enquanto o foco centra-se em determinado ponto.
O cachorro é talvez o personagem mais importante. Ele não se comporta como cachorro, não se manifesta muito. Em contrapartida, as pessoas fazem o papel de cães. As necessidades mais animalescas das pessoas se sobressaem. O sexo, caracterizado pelo estupro, ganha um foco considerável.
A teoria rousseauniana do Bom Selvagem é arrasada. As pessoas são más por natureza. Quem não espera por uma reviravolta durante o filme e/ou não exulta com a vingança de Grace?
As duas cenas que, em meu ponto de vista, mais marcam e representam a essência do filme de Von Trier são, em primeiro lugar, quando Vera quebra dois dos bonecos de Grace e diz que se ela contiver suas lágrimas os outros serão poupados. E, no final, Grace vinga-se magistralmente ordenando que somente poupem os filhos de Vera se ela contiver suas lágrimas ao começarem a matá-los.
Quanto a Nicole Kidman. Simplesmente excepcional.
No início o filme parece ser cansativo, fato acentuado pela ausência de cenário e trilha sonora marcante, e, talvez atenuado pelas mudanças de luz que marcam as principais cenas. Porém as cenas são marcantes. Desnuda-se a essência das pessoas, seu individualismo, seus interesses, um fantástico jogo de metáforas, e, nesse processo, percebe-se o bom emprego que as quase três horas de filme representaram.
Dogville e seus habitantes transcendem o tempo e o espaço. Podem ser colocados em qualquer lugar e em qualquer tempo.
A grande crítica do filme é de caráter social... Em grande estilo nos é perguntado o que realmente somos.

Resenha: Nenhum a Menos: uma leitura das contradições da China moderna

Selecionei 2 resenhas de filmes da disciplina História e Cinema para publicar no blog. Segue abaixo a resenha do filme Nenhum a menos.


Cássia Pereira da Silva

O filme Nenhum a Menos, de Zhang Yimou, retrata de forma quase documental um aspecto pouco conhecido da nação chinesa - a evasão escolar justificada pela pobreza, especialmente na área rural no interior do país asiático. Além de demonstrar a perseverança e tenacidade do povo chinês.
Apesar do gradual desenvolvimento econômico evidenciado a partir da década de 90, a China ainda apresenta relevantes problemas sociais, como por exemplo, o sistema educacional no interior chinês. Percebe-se claramente que o progresso ainda não alcançou boa parte da população chinesa.
O filme aborda os problemas população rural ao contar a história de uma jovem (Wei Minzhi) de apenas 13 anos, que é contratada como professora substituta de uma pequena aldeia, tendo a missão de garantir que nenhum dos alunos e alunas abandone a escola. Quando um dos alunos (Zhang Huike) vai trabalhar na cidade grande, a professora sai numa obstinada missão à sua procura, a fim de convencê-lo a retornar. Percebe-se que a jovem professora é uma menina tímida, inexperiente e sem credibilidade diante das crianças acabando por ficar perdida em meio à turma. Wei faz a chamada a cada novo dia e depois passa para os alunos os deveres de cópias das lições escritas no quadro negro, mas não se preocupa muito se eles estão aprendendo realmente, ela só quer que eles não abandonem a escola.
Um fator interessante do filme é o cenário, a vila de Shuiquan, é árida e extremamente pobre. A escola é simples e extremamente carente de recursos educacionais. Wei dispõe de apenas um giz para cada dia de aula, economizando-os o máximo possível. Ninguém possui livros, a mesa do professor está quebrada, e os alunos e alunas sentam-se em bancos de madeira desconfortáveis. Wei e alguns alunos dormem na própria escola, sendo que, as camas dos alunos são improvisadas com as carteiras da classe. Esta realidade evidenciada no filme é comparável ao que ocorre em pequenas cidades e zona rural do nordeste brasileiro, uma vez que ali a terra é árida, as estradas não são conservadas, as escolas estão caindo aos pedaços, há fome e analfabetismo em larga escala. Há uma alta evasão escolar nesses lugares, pois para ajudar no sustento da família as crianças largam a escola muito cedo, antes dos 14 anos, para ir até a cidade grande mais próxima e arranjar subempregos, ou mesmo mendigar. Ou seja, uma extrema pobreza também assola uma grande parte da população brasileira assim como na China moderna.
Como mostrado no filme a pobreza fez com que o aluno Zhang Huike fosse para a cidade grande em busca de trabalho. Diante dessa situação Wei decide ir em busca de Zhang Huike e para isso todos os alunos assumiram a responsabilidade no resgate do colega colaborando na arrecadação de fundos, mesmo que para isso tivessem que submeter ao trabalho braçal numa olaria. É interessante observar, tanto no começo até o fim dessa trajetória, a recusa da personagem em desistir antes da realização do seu objetivo, o que demonstra a tamanha obstinação e determinação do povo chinês.
Outro fator observado no filme são as discrepâncias da modernidade existentes nas cidades grandes e industrializadas, onde prosperidade e extrema carência “andam de mãos dadas”. Apesar do crescimento econômico, apenas uma pequena parcela da população usufrui dos benefícios desse crescimento, enquanto a maior parte da população ainda permanece na miséria. O realismo social de Nenhum a Menos também é obtido pela quase ausência de música. Os sons presentes no filme são em sua maioria referentes a passos, diálogos, sobre um fundo de ruídos do campo ou o barulho do trânsito e do “corre-corre” da cidade grande, na segunda parte do filme. E isto traz ao filme grande realidade.
Desta forma, Nenhum a Menos, realiza uma crítica social contundente demonstrando claras preocupações sociais, relativas às condições da interioridade na China moderna, além de remeter o espectador às realidades vividas em seu próprio país.