segunda-feira, 2 de maio de 2011

Discurso de Formatura para turma de 2010



Não tem importância, então, se as respostas que demos às nossas perguntas forem logo corrigidas pelo tempo; o adolescente também ignora as futuras transformações desse rosto que vê na água: indecifrável à primeira vista, como uma pedra sagrada coberta de talhos e signos, a máscara do velho é a história de algumas feições amorfas que um dia emergiram confusas, vagamente captadas por um olhar absorto. Em virtude deste olhar as feições se fizeram rosto e, mais tarde, máscara, significação, história.”  (Octávio   Paz)


O que podemos dizer sobre a história e o ofício do historiador, nesse momento, de “formatura”? Inicio minhas reflexões a partir dessa pergunta remetendo-me a um artigo que li semanas atrás sobre a necessidade das ciências humanas, e ai incluímos a história, de libertar-se do “jaleco do cientista” e da “retórica conceitual”, aproximando-se e, levando em conta, o senso comum e possibilidade da valorização de textos menos amarrados a jargões conceituais e mais próximos ao ensaio.
Faço essas considerações iniciais com o objetivo de dizer aqui que o conhecimento produzido pela história e pelas ciências humanas, em geral, é constantemente renovado, como também os métodos, as técnicas e as práticas de investigação e escrita. Isso quer dizer que esse é apenas um momento e um ritual de passagem, mas o historiador, seja ele pesquisador e ou professor de história, jamais deve abrir mão de uma formação continuada, de uma visada interdisciplinar de suas práticas e reflexões. Duas coisas fundamentais que tentei tratar com essa turma ao  longo do período em que estivemos juntos.
Se, por um lado, concordo que é necessário abrir mão do “jaleco do cientista”     e não amarrar nossas reflexões a jargões conceituais deformando nosso objeto para caber em sínteses analíticas estreitas, acredito também em algumas “palavras-conceitos” ainda são e serão fundamentais em nossa prática e é sobre elas, vou falar um pouco.
A primeira delas é a “experiência”, termo tão caro a autores como Benjamin e Thompson, e que nos ajuda compreender outras variáveis, como a idéia de tradição e transmissão cultural e também de identidade. Abrir mão da experiência é aniquilar o passado em nome de uma concepção de “progresso” a qualquer custo. O que é bastante discutido por todos nós. E, nesse sentido, alio ao conceito de experiência outro de fundamental importância para os “tecelões do tempo”, que somos nós, que é o conceito de Memória e seu par o esquecimento.
A memória do que fomos inclui o que queremos ser, ou o que estamos destinados a ser. A idéia do “progresso”, do “novo”, do “moderno” que nega isso é a mesma que possibilitou a ascensão do fascismo. E então acredito firmemente que, quando escolhi ser historiadora, foi por essa causa, lutar contra as práticas fascistas, porque o fascismo não foi apenas um movimento localizado num período específico da história. O fascismo é uma prática de mutilação de um passado, de sua negação absoluta em nome da mais devastadora novidade.
Acredito que como os poetas, os pintores, e todos os demais artistas, nossa função seja uma luta contínua a favor da experiência, da memória, de nossas vidas, do nosso grupo, das instituições e das relações humanas em geral.
Dito isso, tomo de empréstimo a canção de Marisa Monte feita para um profeta carioca chamado Gentileza que teve suas obras de arte pintadas em espaços públicos do Rio de Janeiro, encobertas por cal branca, num claro apagamento da memória de um homem considerado louco por uns e um poeta por outros. Ela diz:
“apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só restou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Precisamos  ver as letras e as palavras de Gentileza”
....Espero que meus queridos formandos e formandas tenham aqui, ao menos, aprendido  a, sensivelmente, abrir os olhos e ouvidos, nesse mundo moderno e agitado, para as palavras do poeta e os sentidos da memória, e que, assim como os artistas, denunciem ativamente e poeticamente as práticas que tentam encobrir nossa memória. E como nos ensinou Walter Benjamin ler a história à contrapelo, e descobrir por baixo da tinta cinza, dos cacos e dos fragmentos da memória o sentido de nossa vida e de nossa história.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dogville

Comentários sobre o filme do diretor Lars Von Trier, Dogville, de 2003.

Bruno Pereira de Oliveira – Ciências Sociais – UFG/CAC

Impacto. Choque. São dois possíveis adjetivos que caracterizam as primeiras cenas de Dogville, e por que não todo o filme. O cenário é inovador – na verdade o cenário é ausente... Onde estão as paredes, objetos, onde está tudo? – Até mesmo o cachorro não passa de um desenho no chão...
Creio ser proposital a ausência de construções concretas, pois parece representar que os habitantes de Dogville, mesmo não vendo o que acontece uns com os outros, podem deduzi-lo. Além disso, este artifício centra a total atenção nos personagens, o que faz até mesmo com que nos percamos um pouco da atenção, curiosos em relação ao que os outros personagens estão fazendo enquanto o foco centra-se em determinado ponto.
O cachorro é talvez o personagem mais importante. Ele não se comporta como cachorro, não se manifesta muito. Em contrapartida, as pessoas fazem o papel de cães. As necessidades mais animalescas das pessoas se sobressaem. O sexo, caracterizado pelo estupro, ganha um foco considerável.
A teoria rousseauniana do Bom Selvagem é arrasada. As pessoas são más por natureza. Quem não espera por uma reviravolta durante o filme e/ou não exulta com a vingança de Grace?
As duas cenas que, em meu ponto de vista, mais marcam e representam a essência do filme de Von Trier são, em primeiro lugar, quando Vera quebra dois dos bonecos de Grace e diz que se ela contiver suas lágrimas os outros serão poupados. E, no final, Grace vinga-se magistralmente ordenando que somente poupem os filhos de Vera se ela contiver suas lágrimas ao começarem a matá-los.
Quanto a Nicole Kidman. Simplesmente excepcional.
No início o filme parece ser cansativo, fato acentuado pela ausência de cenário e trilha sonora marcante, e, talvez atenuado pelas mudanças de luz que marcam as principais cenas. Porém as cenas são marcantes. Desnuda-se a essência das pessoas, seu individualismo, seus interesses, um fantástico jogo de metáforas, e, nesse processo, percebe-se o bom emprego que as quase três horas de filme representaram.
Dogville e seus habitantes transcendem o tempo e o espaço. Podem ser colocados em qualquer lugar e em qualquer tempo.
A grande crítica do filme é de caráter social... Em grande estilo nos é perguntado o que realmente somos.

Resenha: Nenhum a Menos: uma leitura das contradições da China moderna

Selecionei 2 resenhas de filmes da disciplina História e Cinema para publicar no blog. Segue abaixo a resenha do filme Nenhum a menos.


Cássia Pereira da Silva

O filme Nenhum a Menos, de Zhang Yimou, retrata de forma quase documental um aspecto pouco conhecido da nação chinesa - a evasão escolar justificada pela pobreza, especialmente na área rural no interior do país asiático. Além de demonstrar a perseverança e tenacidade do povo chinês.
Apesar do gradual desenvolvimento econômico evidenciado a partir da década de 90, a China ainda apresenta relevantes problemas sociais, como por exemplo, o sistema educacional no interior chinês. Percebe-se claramente que o progresso ainda não alcançou boa parte da população chinesa.
O filme aborda os problemas população rural ao contar a história de uma jovem (Wei Minzhi) de apenas 13 anos, que é contratada como professora substituta de uma pequena aldeia, tendo a missão de garantir que nenhum dos alunos e alunas abandone a escola. Quando um dos alunos (Zhang Huike) vai trabalhar na cidade grande, a professora sai numa obstinada missão à sua procura, a fim de convencê-lo a retornar. Percebe-se que a jovem professora é uma menina tímida, inexperiente e sem credibilidade diante das crianças acabando por ficar perdida em meio à turma. Wei faz a chamada a cada novo dia e depois passa para os alunos os deveres de cópias das lições escritas no quadro negro, mas não se preocupa muito se eles estão aprendendo realmente, ela só quer que eles não abandonem a escola.
Um fator interessante do filme é o cenário, a vila de Shuiquan, é árida e extremamente pobre. A escola é simples e extremamente carente de recursos educacionais. Wei dispõe de apenas um giz para cada dia de aula, economizando-os o máximo possível. Ninguém possui livros, a mesa do professor está quebrada, e os alunos e alunas sentam-se em bancos de madeira desconfortáveis. Wei e alguns alunos dormem na própria escola, sendo que, as camas dos alunos são improvisadas com as carteiras da classe. Esta realidade evidenciada no filme é comparável ao que ocorre em pequenas cidades e zona rural do nordeste brasileiro, uma vez que ali a terra é árida, as estradas não são conservadas, as escolas estão caindo aos pedaços, há fome e analfabetismo em larga escala. Há uma alta evasão escolar nesses lugares, pois para ajudar no sustento da família as crianças largam a escola muito cedo, antes dos 14 anos, para ir até a cidade grande mais próxima e arranjar subempregos, ou mesmo mendigar. Ou seja, uma extrema pobreza também assola uma grande parte da população brasileira assim como na China moderna.
Como mostrado no filme a pobreza fez com que o aluno Zhang Huike fosse para a cidade grande em busca de trabalho. Diante dessa situação Wei decide ir em busca de Zhang Huike e para isso todos os alunos assumiram a responsabilidade no resgate do colega colaborando na arrecadação de fundos, mesmo que para isso tivessem que submeter ao trabalho braçal numa olaria. É interessante observar, tanto no começo até o fim dessa trajetória, a recusa da personagem em desistir antes da realização do seu objetivo, o que demonstra a tamanha obstinação e determinação do povo chinês.
Outro fator observado no filme são as discrepâncias da modernidade existentes nas cidades grandes e industrializadas, onde prosperidade e extrema carência “andam de mãos dadas”. Apesar do crescimento econômico, apenas uma pequena parcela da população usufrui dos benefícios desse crescimento, enquanto a maior parte da população ainda permanece na miséria. O realismo social de Nenhum a Menos também é obtido pela quase ausência de música. Os sons presentes no filme são em sua maioria referentes a passos, diálogos, sobre um fundo de ruídos do campo ou o barulho do trânsito e do “corre-corre” da cidade grande, na segunda parte do filme. E isto traz ao filme grande realidade.
Desta forma, Nenhum a Menos, realiza uma crítica social contundente demonstrando claras preocupações sociais, relativas às condições da interioridade na China moderna, além de remeter o espectador às realidades vividas em seu próprio país.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Aula de quarta (06/10)

Caros alunas e alunos da disciplina História e Cinema

Nessa semana não haverá aula. Estarei numa banca na Unesp/Franca-SP. Por favor escolham um filme e façam uma resenha sobre ele. Aqui vão algumas sugestões:
Dogville
O Poderoso Chefão
Kill Bill
La Nave Va
Oito e Meio
Eu, tu, ele
Cabra marcado para morrer
Pixote
Carlota Joaquina
Marvada Carne
Memórias do Cárcere
Aleluia, Gretchen
O quatrilho
Central do Brasil
O caminho das nuvens

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cinema à prova de morte: a genialidade de Tarantino

Só há uma palavra para descrever o filme À prova de morte de Quentin Tarantino: genial!
Em tempos de imagens 3D, HD, o diretor recupera as imagens distorcidas, disformes, riscadas dos filmes assistidos nas televisões dos anos de 1970. Baixíssima resolução de imagens, mas altíssimo potencial para tratar do tema-cinema. A volta ao analógico em tempos de alta definição de linhas leva os espectadores ao estranhamento: afinal quando foi feito o filme? Será mesmo este um filme do fim da primeira década do segundo milênio? Debochando de todos Tarantino diz que sim!
Para além do roteiro que explora o tema da violência e da paixão por carros, há um outro roteiro. Escondido nas entrelinhas há um debate sobre cinema e mída, e a todo o universo de pessoas a ele ligados: a radialista, os dublês, a jovem aspirantes a atriz, a maquiadora.
O diretor também se insere no filme como um barman que ordena: - acenda-se a luz! Como o mestre Hitchcock , Tarantino torna-se personagem, mas sem a discrição daquele. O personagem/vilão é, sem dúvida, uma figura impar. Kurt Russel em seu carro à prova de morte e suas taras por pés e bundas é absolutamente trash.
Lembramos de Crash, mas sem o teor cáustico dos filmes de Cronenberg. Lembramos também de todos os filmes hollywoodianos que elegem o carro como seu personagem principal. Mas aqui há uma diferença. São as mulheres desbocadas, descoladas, que os dirigem e realizam a catártica vingança contra o vilão mal caráter.
Por isso tudo, para alguém que viu o filme uma única vez, três anos após o seu lançamento em Hollywood, numa sala do cinema no Shopping de Catalão, vale a pena divulgar. Vejam, vejam, vejam....

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vamos ao cinema

Queridos alunos e alunas

Vamos ao cinema na quarta (25/08). A proposta é assistir ao polêmico À Prova de Morte do diretor Quentin Tarantino. O filme aparece classificado ora como ação, ora como terror, mas parece se tratar das duas coisas. Quem quiser assistir ao trailer veja o site abaixo:
http://www.cinepop.com.br/filmes/grindhouse_provademorte.htm
Tarantino é um jovem diretor, ator e roteirista que iniciou sua carreira no cinema independente. Vale a pena ver também do diretor os filmes Pulp Fiction; Cães de Aluguel e Kill Bill. A temática da violência é sempre presente em seus filmes, no entanto, mesmos os apreciadores mais sensíveis do cinema se dispõem a assistí-los. Então nos encontramos no Shopping Catalão para vê-lo. Horário: 18:50.
Abçs
Regma

Ps: Outras dicas: Não percam os filmes "Meu Malvado Favorito" e "A origem", assim que chegarem a Catalão corram para o cinema.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Grupos dos Seminários de História e Cinema

Grupo 1 - Isadora, Dayane, Gláucia, Patrícia, Gullyt, Letícia, Lia
Texto: Elementos de linguagem e história do cinema

Grupo 2 - Laiane, Rafael, Ana Cecília, Jaciely, Rafaela, Janaina, Fabiola, Luciene, Valdira
Texto: A história e o filme documentário

Grupo 3 - Bruno, Bruna, Érika, Vivan, Raquel, Celmo, Marcelo, Marcela Afonso
Texto: História, documento e exclusão social

Grupo 4 - Valéria, Fabiana, Meiriane, Angélica, Lara Cristina, Mário, Cássia, Daliza
Texto: O Estado pós-64 e a reordenação do campo cinematográfico

Grupo 5 - Thales, Crislane, Carlos Eduardo, Sandro Barbosa, Maria Tereza, Ana Luiza, Ana Carolina, Davi
Texto: Figurações, mitificações e modernização: visões do nordeste na cinematografia brasileira

Grupo 6 - Gustavo, Joaquim, Lara Gomes, Ludmila, Luiz Gustavo, Marcela Pires, Sandra Regina, Tito
Texto: História e cinema: um debate metodológico

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DISCIPLINA HISTÓRIA E CINEMA

ALUNOS MATRICULADOS:

ANA CECILIA MOREIRA ELIAS
ANA LUIZA DE OLIVEIRA SILVA
ANGELICA LINO PINTO
ANNE CAROLINE ARAÚJO FARIA
BRUNA FERREIRA DE SOUZA
BRUNO PEREIRA DE OLIVEIRA
CARLOS EDUARDO MOREIRA MACEDO
CASSIA PEREIRA DA SILVA
CELMO ANTÔNIO DE ARAUJO
CRISLANE CALIXTO PEREIRA
DALIZA SANTOS ALVES
DAVI VITAL DA COSTA
DAYANE PINHEIRO SILVA
ERIKA DE SOUZA SILVA
FABIANA DA SILVA FONSECA
FABIOLA RODRIGUES DE SENA
GLAUCIA CELESTINO PIRES
GULLYT VINICIUS CAIXETA
GUSTAVO HENRIQUE MARQUES RIBEIRO
ISADORA OLIVEIRA ROCHA
JACIELY SOARES DA SILVA
JANAINA NAYARA DE PAULA
JOAQUIM LUIS ALVES DO AMARAL
LAIANE FERNANDES JERONIMO
LARA CRISTINA FREITAS ROSA
LARA GOMES REGO
LETICIA REZENDE PACHECO
LIA GABRIELA DA COSTA
LUCIENE SUCUPIRA DE AMORIM
LUDMILA MARIA DE OLIVEIRA SOBRINHO
LUIZ GUSTAVO FERREIRA FELÍCIO
MARCELA AFONSO RODRIGUES
MARCELA PIRES DA SILVA
MARCELO RODRIGUES ASSUNCAO
MARIA TEREZA DUARTE
MÁRIO ALBERTO DE PAULA
MEIRIANE GOMES LEONEL
PATRICIA MENDES DE OLIVEIRA
RAFAEL JUNIOR DA SILVA
RAFAELA CRISTINA GONÇALVES
RAQUEL ROSA RAMOS
SANDRA REGINA DE SOUSA GUSSON
SANDRO BARBOSA E SILVA
THALES HENRIQUE RODRIGUES GODOY
TITO NAFITALI NOGUEIRA DOS SANTOS
VALDIRA CARDOSO DE MENEZES
VALÉRIA CRISTINA FURTADO DE SOUSA MOURA
VIVIAN MARIA DA SILVA DIAS

segunda-feira, 6 de julho de 2009

"Estômago": ou a dor e a delícia de ser o que é

O filme do estreante em direção Marcos Jorge nasceu da idéia de um conto de Lusa Silvestre "Presos pelo Estômago", do livro "Pólvora, Gorgonzola e Alecrim". Nasce daí o primeiro encontro entre artes: literatura e cinema, que irá gerar outro: cinema e comida. A história tem início com a chegada de Raimundo Nonato (João Miguel) na cidade grande na esperança de conquistar uma vida melhor.
O personagem revela, já no início do filme, seu talento para a cozinha. Contratado por um dono de botequim transforma suas coxinhas e pastéis em chamariz para os clientes. O bar torna-se um sucesso. Por lá personagens importantes da história terão seu primeiro contato com Raimundo: a prostituta Íria (Fabiula Nascimento), e também Giovanni (Carlo Briani), que experimentando sua saborosa comida o contrata como assistente de cozinheiro de um restaurante italiano. A primeira lição foi dada ali, sua habilidade e capacidade para misturar os ingrediente e o sabor de sua comida revelam o caminho a seguir.
Conseguir status, reconhecimento e poder, por meio da cozinha, é o que o ensina o novo patrão. Desde o ponto de cozimento do macarrão, e o momento exato de fritar o alho, a reconhecer as partes mais saborosas (e caras) da carne de vaca, a aprender o que é o queijo gorgonzola, e como transformar, o famoso Romeu e Julieta, em um prato sofisticado, utilizando-o em substituição ao queijo minas; a reconhecer, no mercado, as melhores frutas e verduras e também os melhores vendedores e suas famílias.
Tudo isso faz parte do ritual de aprendizado que Nonato irá utilizar em outro momento do filme, que entrecruza os momentos acima descritos com a entrada de Raimundo Nonato na prisão. Em situações simultâneas vamos acompanhando o poder que aquele que agora se denomina “Nonato Canivete”, conquista no xadrez ao tornar-se cozinheiro do grupo. O líder da cela consegue todos os ingredientes para que o “Parmalat” ou “Alecrim”, como o chamam, possa transformar a horrível comida do presídio.
Num banquete inusitado, na cozinha da prisão, Nonato deixa a todos enfastiados pela boa comida e, a partir dali, com a morte do líder assume o beliche de cima, sonhando em ter uma cela só para ele. Os exercícios de saber e poder ali se evidenciam. Na aprendizagem da culinária com “Seu Giovani”, Nonato descobriu também que boa comida, sexo e poder se equivalem, conforme as metáforas do dono do restaurante e também amante de Íria, a quem Nonato propôs casamento.
Da simplicidade e ingenuidade de um imigrante surge um homem tomado por um sentimento de vingança. O desfecho do filme nada fica a dever a Peter Greenway que fez o brilhante “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”, que traz também outras metáforas sobre os prazeres, e, também, porque não dizer, desprazeres à mesa.
Se a culinária é uma arte, é no estômago que ela encontra seu espaço de devoração e transformação. Ali também ruminamos sobre todos os dissabores da vida. É a partir dali que a vida se mantém. Opostos interessantes como aqueles que o filme aborda.
A antropofagia tem aqui sua outra face. Nonato devorou, não apenas o saber do seu patrão, mas também as metáforas, como verdades, realizando interpretações próprias sobre a arte que aprendeu. A partir daí seus usos e práticas serão os mais variados possíveis.
Não por acaso o filme recebeu, somente no exterior, quatorze premiações. Assisti-lo é um prazer, pois a soma dos ingredientes produziu um “prato” requintado e simples. Excelente roteiro, boa direção, atores magistrais fazem parte dessa receita. Portanto, saboreiem essa obra de arte, que é o cinema.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Memória e cultura local: algumas reflexões sobre os cacos da história

Prof.ª Dra. Regma Maria dos Santos

(Prof. de História da UFG-CAC, Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP)


"O que sucede é que tua maldita memória lembra as palavras e esquece o que está por detrás delas.” ((Eu, o Supremo, Augusto Roa Bastos, 1977, p.76)

Assisti, no final dos de 1980, num simpósio de História realizado em Brasília uma mesa-redonda cujo tema era: ‘Memória, História e Patrimônio Cultural”. Depois de passado tanto tempo é incrível como as questões ali colocadas ainda são atuais. Um dos temas abordados referiu-se à postura do historiador diante do patrimônio cultural, ou seja, qual a relação entre memória – como componente do patrimônio cultural; e história - enquanto discurso científico elaborado sobre esta.
O Prof. Afonso Carlos Marques dos Santos, citava, naquele momento a ausência de historiadores nos órgãos de preservação, o que ainda prevalece. Sem contar as cidades que sequer têm seus órgãos de Preservação ativos, ou em precário funcionamento. O que hoje preocupa, além da ausência de historiadores nos órgãos de preservação, é justamente a não reflexão sobre o que é memória, o que tem gerado constantes problemáticas e gostaria aqui de enumerar algumas:
1 – A compreensão de memória como algo cristalizado; remetendo a uma atuação de apenas conservar a documentação já presente nesses lugares, sem que seja dado devido tratamento à mesma e a coloque para ser estudada e avaliada pelos pesquisadores;
2 – A elaboração de dispositivos legais ou jurídicos cuja rigidez impede uma atuação mais flexível dos órgãos de pesquisa, seja na aquisição documental, através de doações de particulares, seja na avaliação dessa documentação (como atribuir a um documento se realmente ele possui valor histórico, ou não, seja ainda na maneira como essa documentação é colocada para o pesquisador).
3 – Uma terceira questão, que talvez na realidade pudesse ser a primeira delas refere-se à criação e manutenção, pelos poderes públicos, desses lugares de memória, diante de tantas outras necessidades administrativas.
Para Yuri Lotman e Uspenskij[1] a cultura dirige-se contra o esquecimento, objetivando transformá-lo em um dos mecanismos da memória. Esses autores consideram ainda que uma das formas mais agudas da luta social se dá no âmbito da cultura através do esquecimento obrigatório a certas experiências históricas.
Mas, em períodos ascendentes da história, ou seja, momentos democráticos, criam-se modelos flexíveis e dinâmicos que ampliam as possibilidades da memória coletiva. Já em momentos de decadência social, acompanha-se uma ossificação da memória coletiva, reduzindo seu volume. Pode-se observar esse exemplo no livro de George Orwell “1984” no qual a memória deve ser apagada e o presente vivido como eterno iniciar. É claro que esse livro é uma crítica à sociedade totalitária.
Paul Zumthor, outro autor que também aborda essa questão, afirma que memória e esquecimento são instrumentos conjuntos e indissociáveis, em suas palavras: “Nossas culturas não se lembram senão esquecendo, não se mantêm se não rejeitando uma parte disto que elas têm, no dia a dia, acumulado de experiência.”[2] Podemos depreender destas referências que não é possível lembrar senão esquecendo. Uma das formas de cristalizar a memória e negar o seu caráter de esquecimento.
Walter Benjamin já nos alertava que, num momento de lampejo, o perigo nos faça lançar nossos olhos para trás. Esse perigo da destruição está sempre em iminência. O historiador em geral, está sempre atrasado. Quando encontra uma documentação parte já foi destruída por intempéries ou por algum interesse espúrio.
Outra forma de cristalizar a memória é também atribuir apenas aos órgãos de preservação, a função de guardar e zelar pelos documentos que o homem produz. Mas, uma das formas mais preocupantes de cristalizar a memória é a prepotência dos órgãos que preservam em “preservar demais”, ou seja, não permitir que uma documentação seja consultada.
A prática da preservação requer o manuseio das fontes, mesmo que seja através de cópias, microfilmes, etc.; mas quando isso não é possível, deve-se permitir ao pesquisador o contato com o documento original, observando as devidas normas técnicas de preservação. Podemos considerar essa prática como “museificação” do documento, no sentido pejorativo do que é um museu.
A partir dessa questão entramos em outro aspecto que é a legislação. Legislar sobre o bem público ou privado é bastante complexo. Porque não basta apenas elaborar as leis, é preciso cumprí-las, mas antes de tudo é preciso interpretá-las. Para que sejam bem interpretadas essas leis têm que contemplar as especificidades a que se refere, porque se consideramos a memória como algo dinâmico e não cristalizado, este dado tem de ser contemplado.
Definir a priori que será preservado e como será feito, sem deixar margens para a especificidade de cada documento, pode resultar em posturas e práticas equivocadas.
Algumas práticas recentes podem ser observadas nesse sentido. A preservação de fachadas é uma delas. Os prédios privados conseguem manter as mesmas características em seu exterior, mas são atribuídos usos sociais diferenciados ao seu interior. Casas se transformam em bancos, em lojas, em bares, resultando em uma reutilização daquele espaço, que conta a história de uma época.
Mas, finalmente onde entra o historiador? Acredito que seu papel seja o de sensibilizar a sociedade e a comunidade para a importância da memória, do documento, dos lugares de memória, e permitir uma maior flexibilidade na elaboração de leis e dispositivos jurídicos de preservação.
O fenômeno recente que ocorre em Catalão de destruição constante e arbitrária do seu patrimônio material, casas de particulares, lojas, órgãos públicos é bastante expressiva em relação às questões acima levantadas. O fenômeno da urbanização, do progresso, tem derrubado o patrimônio arquitetônico em nome do crescimento da cidade, do emprego e da “modernização”.
No Campus de Catalão acompanhamos também esse fenômeno. Prédios são construídos, reformas são feitas e sequer a preservação de fachada foi pensada para preservar a história dos antigos prédios que antes serviam como sala de aula e gabinete de professores. Mais uma vez os historiadores assistiram passivos às mudanças sem chamar atenção para a importância de preservar, até que o painel de artistas catalanos pintado nos anos de 1990 sobre “lugares de memória” da cidade começou a ser destruído. Propõem pintar uma réplica no lugar, mas o que adianta, pois essa réplica também sofrerá a ação do tempo. E então, será novamente substituída por outra, já que é caro restaurar.
Compreendemos então que, como dizia Benjamim, o perigo de destruição da memória é sempre iminente, pois se trata não apenas de destruir a memória do lugar, mas também a memória dos artistas que ali viveram e deixaram suas marcas no tempo.
E como lidar com essas marcas e essas ausências. Um exemplo sobre a participação dos historiadores pode ser dado com relação aos trabalhos que têm sido desenvolvidos sobre a história de Catalão pelos alunos do curso de História da UFG. A aluna Ana Inácia desenvolveu uma pesquisa sobre A Igreja do Rosário no imaginário Catalano, apresentando uma concepção dinâmica de memória, observando que a Igreja e o morro onde se localiza têm sentidos e significados que vão além daqueles observados à primeira vista. A pesquisa revela outros aspectos que diferem da concepção idílica e bucólica do morro, como aquela cantada pelos poetas quando expõe o entorno do morro habitado por pessoas que estabelecem relações naquele local, tornando-o assim um lugar dinamizado pelos conflitos e práticas sociais. Por outro lado, a pesquisa revela também as lendas sobre o morro que se fixaram na memória das pessoas comuns, dos cronistas e memorialistas. E ainda, o espaço profano, onde se encontram os namorados, os amantes que escrevem nas janelas e portas, seus nomes, como se quisessem abençoar aquele ato. E, por fim, o espaço que vigia, inibe e intimida por ter ali um posto policial.
Diante desse exemplo, podemos justificar a importância da preservação, da pesquisa histórica e conseqüentemente a existência desses 'lugares de memória', cujo uso social pode ser redefinido e ampliado. Destaco ainda que a pesquisa acima citada usou como documento as representações da Igreja e do Morro de São João pintadas no mural da UFG, em parte hoje destruído.
Se apenas resta ao historiador, impossibilitado de mudar a história, apenas relatá-la, comentando o que as práticas políticas e as visões sobre cultura e memória têm destruído, não vamos nos esquivar desse papel. Mas, ainda acreditando na importância das ruínas, dos cacos, como Benjamin nos ensina defendo a manutenção do painel, pois talvez ali pudéssemos encontrar o imaginário local sobre certos lugares de memória; talvez ali estivessem expostas as concepções de sagrado e profano da cidade, conforme a leitura dos artistas; talvez ali esteja uma cidade que deva ser destruída para se construir outra em seu lugar (então a sua destruição é também simbólica); talvez esteja ali expresso a necessidade de salvar do esquecimento lugares como a gruta da santa; o morro e a igreja de São João (destaque-se aqui as práticas religiosas ali presentes); a barriguda(que já se foi e plantaram outra no lugar); a praça do relógio; dentre outros. Esses componentes atravessam o estético e se impõe para além dele. O histórico, o imaginário, as representações sociais, as relações de conflitos e lutas e representações são hoje, sim, definidoras do que preservar e respondem a pergunta de porquê preservar.

[1] Y.Lotman y B. Uspenskij. Sobre el mecanismo semiotico de la cultura. In: Semiotica de la cultura. Madrid: Ediciones Catedra, 1979.
[2] Paul Zumthor. Políticas de Esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Sueli Fenerich, mimeo.