quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A imagem e suas nuances na obra de Crispim Campos

Para quem ainda não conhece salta aos olhos a singularidade da obra poética, tornada imagem, pelo artista Crispim Campos. Pintor vindo de Franca, cujo padroeiro é São Crispim, este artista cruzou mundos e fronteiras, a mais recente delas de Campinas – SP para Catalão – GO. Além de artista, psicólogo, professor, Crispim é um militante da causa da deficiência. Após passar cerca de 15 anos sem pintar, ao cruzar a fronteira e aportar em terras catalanas o vigor, a energia e franqueza de suas obras voltou a ocupar sua vida. O artista busca no primitivo, na religiosidade, no simbólico, na cultura, no urbano, no mar (também primitivo) suas referências. Expõe-se também a figura feminina em várias e diversas formas, contornos, silhuetas, insinuações. O cotidiano das ruas da cidade é também um de seus temas. Mas, nessa nova fase, expressa também sua experiência/vivência com a deficiência. Utilizando a técnica da monotipia o artista, muitas vezes, espanta-se com as imagens que ali aparecem e expressam um momento de outra fase. Suas telas revelam encontros/desencontros e possibilidades, mais ainda um olhar interno de quem percorreu um longo trajeto e volta ao estado natural(anti) de relacionar-se com o mundo e exprimi-lo em forma de linguagem plástica.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Da Cultura da Greve no espaço virtual

Terminamos, nesta semana, com uma greve das instituições federais de ensino superior que se estendeu por mais de 100 dias. Em que pese todo o desgaste, as pequenas conquistas, os desabafos, o envolvimento neste processo perpassou, pela primeira vez, um outro espaço de debates e reflexões que não deve ser menosprezado e é sobre ele que gostaria de falar como estudiosa da cultura e da comunicação. Participei de 3 grupos no Facebook abertos imediatamente após a deflagração da greve. Um deles, a princípio, formado por professores de história foi ampliando seu leque de inclusões de professores de todas as áreas e das mais diversas universidades brasileiras. Este grupo chegou a contar com cerca de 1.458 membros. O segundo grupo foi formado por estudantes de todo Brasil e também contava com a participação de professores e chegou a ter cerca de 150.000 membros. O terceiro grupo mais local reuniu alunos e alguns professores da UFG, principalmente do Câmpus Catalão e chegou a ter 1517 membros. Fiquei realmente admirada e encantada com esta experiência. Por mais divergentes que fossem as posições e práticas, foram poucas as manifestações exaltadas ou que se valessem de expressões chulas ou grotescas, mas é claro que elas também existiram, já que nesse espaço democrático de comunicação, os cerceamentos eram mínimos. Diga-se, de passagem, que num desses grupos sequer havia moderador. E, mesmo se houvesse, creio que seria dificílimo controlar a fala de tanta gente ao mesmo tempo. O interessante é que a greve pode ser contada, estudada, compreendida por meio deste instrumento. Para além das determinações da direção do sindicato, do comando nacional de greve, do comando local de greve, estavam ali todos discutindo e opinando sobre o que fazer ou não. Os comunicados elaborados depois de horas de debate e revisão já chegavam, em seus detalhes mais polêmicos, imediatamente ao facebook, muito antes de serem publicados na página do sindicato. As assembleias eram postadas após a fala de cada um e o poder de síntese dos “faceiros” era incrível. A emoção dos debates ali se exprimia por um simples: ”putz...vai dar m...”. Outros aproveitaram o espaço para construir teses de como conduzir um sindicato, como organizar o movimento, como alterar a ordem estabelecida por meio de novas práticas. Creio que depois dessa experiência, nada será como antes e as práticas terão, realmente, de ser repensadas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre “Geografia do Preconceito”

Sobre “Geografia do Preconceito”, curta metragem dirigido por Daniel Nolasco e Marcella Coppo, que bem poderia se chamar “cartografia do desejo e da morte” ou ainda “coreografia da violência” e outros que tais, só posso dizer que fiquei com aquela sensação de embrulho no estômago e na alma que toda boa obra cinematográfica, ou qualquer outra obra de arte pode nos causar.
Para além de um roteiro que dialoga com as referências de filmes documentários contemporâneos, percebemos não só a denúncia, a explicitação de um ato de violência, mas também a fina ironia de seus realizadores ao narrá-la. A escolha da trilha sonora, dos sons incidentais que marcam o compasso da narrativa, são perfeitos (com todos os contraditórios que essa palavra indica).
Inserir na abertura a leveza de Fred Astaire para encerrar com a música absolutamente impossível de se adjetivar, mas que podemos pedir emprestado de seu título: bruta, rústica, sistemática, que incita ao preconceito, define o que é certo e errado; revela bem a cultura e a forma de pensar de determinadas pessoas num determinado território.
Para um trabalho de estréia só posso dizer que revela novos talentos, que apurando suas potencialidades, afinando seus instrumentos e suas técnicas, com certeza, nos brindarão com boas surpresas! Ousadia para tratar de temas delicados, sensibilidade para relacionar opostos e contrastes, os diretores têm de sobra! Espero que a obra possa, em breve, ser vista por muitos, e que ela cumpra todos os desígnios para e pelos quais foi feita!

domingo, 11 de dezembro de 2011

Manjar la comida catalã

Conhecer outros países parece ser um desafio, por vezes, saboroso. É claro que em todos os sentidos, dizer que se “conhece” um pais estando tão pouco tempo ali, soa, na verdade, muito pretensioso. Por isso prefiro deixar claro aqui que se trata de experiências muito pessoais com todos os condicionamentos que isso implica.
A sensação que temos quando chegamos aqui é que o espanhol come muito. Os horários são diferentes dos nossos e, por exemplo, quando já vamos almoçar por volta de 11:30 ou 12:00 os espanhóis comem um bocadilho, que pode ser metade de um baguete recheado com “jamon” que é uma espécie de presunto cultuado por eles.
O almoço só começa a ser servido por volta das 13:00 , e tem primeiro, segundo, terceiro prato e para finalizar um café. Respeitando esses horários as lojas dos bairros que só abrem depois das 9:00, fecham-se por volta das !4:00 e só são reabertas por volta das 16:30, funcionando em geral até as 20:00 hs. Para beber sempre uma boa cava, e também vinhos muito bem avaliados. Aqui come-se também muito pão, cujas receitas são variadas e saborosas.


As vitrines das “panaderias” são verdadeiros espetáculos para os olhos e para o paladar. Receitas antiqüíssimas de doces, merengues, quintadas são mantidas principalmente em lojas da cidade velha.
Os peixes também são muito consumidos aqui e a paella de marisco a mim me pareceram as mais saborosas. O bacalhau que provamos num restaurante chama La Taverna, foi especial, pois servido com uma espécie de ratatouille (verduras com molho vermelho). O restaurante também é muito interessante, uma espécie de museu da publicidade. Apresento aqui uma delas, na qual o dragão vencido por São Jorge(padroeiro da cidade), aparece mais uma vez.

 


Creio não ser por acaso que o cozinheiro número 1 do mundo chamando Ferran Adrià vive em Barcelona. Seu restaurante “El Bulli” foi recentemente fechado e a Folha de São Paulo lhe dedicou uma enorme matéria. Para muitos Adrià faz com a comida o que Gaudi fez com a arquitetura, uma revolução em nossos sentidos e percepções. Pena que, com certeza, jamais desfrutarei desse prazer! Pelo menos pude desfrutar um pouco dos temperos, cheiros, sabores, cores da comida da Catalunha.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entre dragões e torres: a arte de educar em Barcelona

É interessante observar aqui em Barcelona a forma como pensam e praticam o que chamamos “educação”. Pensamos que aqui esse termo é como se fosse a alma do povo, e não há como pensá-la sem compreender o mais profundo sentido que esse tema tem para as pessoas comuns.

Posso citar alguns exemplos práticos que vivenciei aqui para justificar minhas considerações acima. Trouxe meu filho de quase 5 anos para cá e nesse curto espaço de tempo tornei-me uma observadora atenta de como as crianças são tratadas aqui. No primeiro dia que saímos pela cidade levamos nosso filho à universidade, ao virar o quarteirão nos deparamos com um verdureiro que brincou com ele e disse: “no anar a l'escola?”

A partir dai começou toda uma série de situações, nas quais os olhares se voltavam para nós, como se estivessemos burlando uma conduta, um código, uma prática social. Voltamos para casa convictos que deveríamos matricular o Heitor em uma escola mesmo que fosse apenas por 2 meses. E por esse fato pude entrar dentro de uma escola catalã e observar suas práticas e métodos.

Devo falar dessa perspectiva institucional em outro momento, porque o interessante de processo de reconhecimento veio aos poucos, por meio de observações cotidianas . Uma das mais interessantes foi ver uma criança entre 2 e 3 anos, vindo da escola com o seu avô. Ela carregava uma mochila nas costas que parecia mais pesada que ela. Então ele caia e rolava no chão como uma bola tentando se levantar com o peso da mochila, e o avô apenas observava. Quando começei a buscar o Heitor na escola, vi esta cena se repetindo várias vezes, como se fosse comum. E eu carregando um menino de quase 5 anos no colo!

Começei a compreender que isso faz parte de um processo de educação para a vida que, para mim, tem haver com a alma anarquista desse povo: educa-se para a autonomia e a responsabilidade. Cada um, desde cedo, carrega a mochila que lhe é destinada e assim para o resto de suas vidas.

Ao visitar a Sagrada Família, tão linda, imponente, majestosa, fruto de uma obsessão, não apenas do Gaudi, mas de uma sociedade, e sobre a qual também formulei algumas hipóteses, o que mais me chamou atenção foi uma pequena construção ao seu lado, que é a escola que Gaudi projetou para ensinar aos filhos dos operários que trabalhavam em sua construção.


Quando vemos as pinturas de Miró também não podemos deixar de pensar no sentido que a infância tem para o povo catalão. João Cabral de Melo Neto o homenageou em um poema, que creio ser uma síntese dessa sociedade, que aprende com os “niños e niñas” as lições sobre como lidar com o inesperado, com o que não é adestrado, com o desconhecido. E, a partir dai, compreendo porque Heitor quis pintar de rosa a Sagrada Família e encontrar dragões pela cidade.



O sim contra o sim

João Cabral de Melo Neto:

Miró sentia a mão direita

demasiado sábia

e que de saber tanto

já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse

o muito que aprendera,

a fim de reencontrar

a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se

a desenhar com esta

até que, se operando,

no braço direito ele a enxerta.

A esquerda (se não se é canhoto)

é mão sem habilidade:

reaprende a cada linha,

cada instante, a recomeçar-se.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Barcelona: um carrossel de diversidade


Creio que uma das coisas mais impactantes quando chegamos à cidade de Barcelona é perceber como essa sociedade funciona tão bem, apesar, e para além de, abrigar aqui pessoas das mais diversas raças, religiões, costumes, países e culturas.
Viver na cidade nos dá uma mostra bastante evidente dessa diversidade e dessa convivência. Moramos em Navas, um bairro próximo à Av. Meridiana, uma das principais da cidade. Aqui, como em muitas partes das cidades multiplicam-se os bazares, os restaurantes e as “panaderias” chinesas.
Diferentemente da aparente “rudeza”, da fala ríspida, do passo apresado dos espanhóis, os chineses são extremamente atenciosos, calmos, prestativos. O garçom de um restaurante na esquina de nosso apartamento definiu bem, o modo de viver dos espanhóis: “para nosotros, 5 minutos son 2”! E é a mais pura verdade, basta olharmos para o caixa do restaurante espanhol e a conta já está em nossa mesa. Os trens de metro e, pasmem, os ônibus de linha têm suas paradas rigidamente controladas por um placar eletrônico que avisa se vamos aguardar 40 segundos ou 5 minutos a sua chegada.
Os paquistaneses, africanos, indianos, árabes, também estão bastante presentes aqui. Cheguei a ver uma mulher usando burca, empurrando um carrinho de bebê, só com os olhos à mostra. Parece que também há uma migração forte de países, como Rússia, Ucrânia e outros do leste europeu, mas que por suas características físicas, não conseguimos distinguir tão claramente.
Os paquistaneses e indianos também atuam bastante no setor de serviços e costumam ser também muito atenciosos e prestativos. A língua parece não ser um problema para eles. Falam tanto o catalão, como o espanhol. Seus filhos, com certeza, falarão 4 línguas. A sua de origem, que se fala em casa; o catalão,  o espanhol e o inglês que se aprende na escola, a partir dos 3 anos de idade.
Na escola de meu filho há muitos chineses, indianos, árabes e africanos. E essa mescla se espalha pela cidade. Levei o Heitor a um carrossel, e, não sei se por coincidência, havia uma criança africana, uma indiana, uma chinesa, gêmeos espanhóis e o brasileirinho do Heitor. Creio que, até agora, essa foi a melhor síntese/metáfora que consegui fazer da cidade:um carrossel de diversidade.
À porta da escola essa experiência se repete, mas como passar  dos dias, vou considerando muito natural e familiar, o que antes parecia estranho e desconexo. Algumas mães falam árabe, outras, inglês, mandarim, espanhol, e catalão. É verdadeira Babel, mas ali parece que todos se entendem.
Acima disso tudo as torres da Sagrada Família, de um lado, e a torre Agbar de outro, parecem, estar sempre vigilantes, a tudo que se passa por aqui. Acima delas só o guindaste do Parc Tibidado  que, no ponto mais alto da cidade, eleva as pessoas mais corajosas, acima do acima”. Parece ser esse o desejo que povoa o imaginário daqueles que aqui vivem. Depois de ter compreendido um pouco melhor a história da cidade, passo a conjecturar que, o fato de a cidade ter sido cercada por muralhas durante quase 7 séculos e ser constantemente vigiada sob a mira de canhões, moldou  a perspectiva vertical  de sua arquitetura  e de seus guindastes.  Por outro lado, creio que isso também revela o quão silenciosa é a cidade, até meu filho de 5 anos percebeu isso. Para os ruidosos brasileiros, o silêncio de Barcelona é , por vezes, embaraçoso.  No metrô, no ônibus, nas ruas, caminhar com crianças é um verdadeiro exercício de contenção. Mas sobre esse assunto escrevo depois.....

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre o grande moleque Tião que se tornou Otelo


Assisti ontem a peça “Moleque Tão Grande Otelo”. Uma proposta que poderia correr o risco de ser mais uma narrativa biográfica, transformou-se num espetáculo digno daquele que o nomeia.
Temos ali a grata surpresa de entrar no espetáculo pela escada do espaço Cultural Veredas, que abriga a peça, distribuída pelos diversos cômodos de uma casa.
Outro aspecto interessante é que este espaço é situado na Praça Tubal Vilela, local onde um busto de Grande Otelo olha para os transeuntes, que por esse “lugar de memória”, podem, de repente, percebê-lo e perguntar: quem é esse sujeito?
A resposta será dada atravessando a rua. Saímos com a sensação de que, num espetáculo de pouco mais de uma hora, sua vida foi a nós revelada. Suas peraltices de menino, sua paixão pela arte, seu destemor pelo novo, sua ousadia e coragem, suas fraquezas, seus enfrentamentos cotidianos, suas desilusões, suas ilusões...
O mote para o início da dramaturgia é uma conversa com Orson Wells que o pergunta sobre a visita que faz a Uberlândia quando da inauguração de um teatro que levaria o seu nome. Dessas perguntas nascem as rememorações do moleque Tião, sobre a avó, a mãe, a escola, a Mogiana, a ida para a cidade grande.
Depois entramos por sua vida adulta no teatro, na música, no cinema. Cenas antológicas de sua filmografia são ali relembradas como a “Boneca de Pixe” e a cena do balcão de Romeu e Julieta do filme feito com Oscarito. A trágica morte de sua mulher e de seu filho é também tratada com a sobriedade e intensidade que merece.
Ao final o julgamento. Absolve-se ou condena-se Grande Otelo por sua vida errante e, ao mesmo tempo, encantadora. Compreendemos que a arte o liberta. Sebastião Prata transformou-se irremediavelmente e, para sempre, em Grande Otelo.
O grupo Athos de Teatro e toda a equipe de produção e direção mereceram os aplausos efusivos dos que ali estiveram. Que mais pessoas possam compartilhar dessa bela homenagem! 

Regma Maria dos Santos

Exposição de fotos, como diria a Lena: O tempo passa...e nós não estamos nem ai...

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Dançando com RPM

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Valdeci e Lu - bom papo

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